Escolha as suas informações

António Zambujo. Da voz e do violão
Cultura 21 min. 29.09.2022
Música

António Zambujo. Da voz e do violão

Este sábado António Zambujo sobe ao palco da Philharmonie no arranque do Festival Atlântico.
Música

António Zambujo. Da voz e do violão

Este sábado António Zambujo sobe ao palco da Philharmonie no arranque do Festival Atlântico.
Foto: Mariana C. Silva
Cultura 21 min. 29.09.2022
Música

António Zambujo. Da voz e do violão

Redação
Redação
Aos 47 anos, tem lugar certo na música portuguesa. Nos quatro cantos do mundo, põe fãs a "dar uma voltinha" de "Lambreta" e até os leva, "de manhã cedinho", a conhecer o "Pica do 7", o elétrico mais cantado de Portugal. Aos cinco anos, na taberna da vizinhança, estreou-se nas modas alentejanas. Era o Tó Zé, neto da Joaquina, uma “Bailarina” a jogar à bola e um campeão na cantoria. Este sábado, a Philharmonie é de António Zambujo.

(Ana Sofia Fonseca)

Alguma vez foi emigrante?

Em 2000, tive de sair da minha terra. Mas vim para Lisboa.

Ser migrante não é um sentimento assim tão diferente.

Pois não. E, nessa altura, comecei a tocar muito fora, sobretudo em França. Fazíamos cerca de 40 concertos em França. Sou um migrante, sou um viajante.

Como é que foi fazer as malas e trocar Beja por Lisboa?

No princípio foi muito difícil, mas depois, sem darmos por isso, as coisas vão invertendo. Quando vim, estava a fazer o musical sobre a Amália Rodrigues, com o Filipe La Féria, ensaiávamos dia e noite, não tinha tempo para nada. Depois de estrear, continuámos a ensaiar para aperfeiçoar. Um musical é muito cansativo, fiquei muito tempo sem ir a Beja.

O que é que estranhou mais?

Tudo! Vim sozinho, não tinha cá ninguém. Deixei lá a família, o meu filho mais velho já tinha nascido, era muito pequeno. E deixei os amigos. Como vinha a Lisboa de vez em quando cantar, tinha alguns amigos nas casas de fado, mas não tinha um núcleo. À medida que fui construindo isso, as coisas foram-se virando ao contrário.

E Lisboa fez-se casa. Vive na capital portuguesa desde o final de Maio de 2000. Chegou dias depois do Papa João Paulo II, em Fátima, presidir à beatificação dos Pastorinhos e pouco antes da inauguração da Ponte Vasco da Gama. Nesse mesmo ano, o Luxemburgo havia de ver o Grão-Duque Henri subir ao trono, mas Zambujo ainda estava longe de imaginar correr o mundo a tocar e a cantar. De perder-se nas ruas do centro e do Grund, horas antes do concerto. Este sábado, antes de subir ao palco da Philharmonie, há-de repetir o ritual. Gosta de passear pelas cidades que lhe escutam a voz.

Veio para Lisboa atrás de um sonho?

Vim atrás de um impulso. Eu não sou de sonhos, sou de impulsos. Não perco tempo a pensar o que é que poderia ter sido ou o que é que poderá ser. Sou muito pragmático.

Parece-me um ótimo antídoto para a ansiedade.

Não sofro com coisas que não acontecem.

No início de tudo está a música?

Sempre a música. Sempre, sempre... às vezes penso que foi por vontade própria. Mas a verdade é que também foi por alguns empurrões da vida, sobretudo da minha avó e da minha tia. Tinha uma tia que cantava... As crianças nunca têm uma voz definida, mas elas achavam que eu cantava bem e as crianças convencem-se facilmente.

Como é que se chamava a sua tia?

Clarisse.

Fale-me dela.

A minha tia vivia com a minha avó, era a irmã mais velha da minha mãe, e trabalhava numa loja chamada "Estudantina", que vendia discos. Acho que era a única casa que vendia discos em Beja. Lembro-me de ela chegar a casa com discos novos, de todos os géneros musicais. Na altura, a rádio transmitia o top de vendas de discos e era ela quem anunciava o top de Beja.

Fosse hoje e, volta e meia, estaria a dizer o nome do sobrinho.

Provavelmente. (Risos)

A sua tia era fadista?

Não, mas cantava fado muito bem. E adorava fazer jantaradas em casa, que acabavam sempre comigo e com ela a cantar. Os meus primos também alinhavam.

Falámos da sua tia. E a sua avó Joaquina?

É a pessoa mais importante, a minha referência.

Em miúdo, já sonhava ser artista?

Nunca me lembro de querer ser outra coisa...

Foto: Mariana C. Silva

Cantarolava lá por casa, sozinho?

Nunca fui disso, fui sempre de ouvir muita coisa, de tocar instrumentos. Comecei com o clarinete.

É do tempo em que se colava o ouvido à telefonia?

Sim, a minha avó estava sempre a ouvir rádio e eu passava a maior parte do tempo com ela. Além disso, ela tinha muitos discos e cassetes que eu adorava ouvir.

Também rebobinava as cassetes com uma caneta?

Claro! Com uma caneta BIC, que eram as que davam para fazer isso.

E tinha uma cassete à mão para gravar as músicas que a rádio passava?

Sim! Havia alguns programas que era religioso fazer isso. O Oceano Pacífico, por exemplo. E havia um ao sábado à tarde que dava músicas mais fora.

Pior era quando o locutor falava por cima da música.

Nessa altura, já não falavam tanto. Acho que sabiam que a malta lá em casa estava a gravar as músicas. (Risos)

"Trago o Alentejo na voz/Do cantar da minha gente". Este é o António Zambujo?

É uma parte de mim. Até porque a primeira memória musical que tenho é ouvir os homens a cantar as modas. E, passado um tempo, cantar com eles. Foi isso que me fez querer ser cantor. Não há dúvida que tem um papel fundamental na minha vida.

Lembra-se da primeira música que aprendeu?

Não faço ideia, deve ter sido uma moda alentejana.

É verdade que começou a cantar numa taberna?

Sim, na taberna do Sintra. É uma tristeza, agora está fechada, abandonada. Aliás, a cidade de Beja está muito abandonada. Todo o interior está um bocado assim.

O interior continua assolado pela falta de gente?

Falta sobretudo gente, são as pessoas que dão vida às coisas. O que adianta recuperar uma casa, uma estrada se não há lá ninguém? Havia o projeto da auto-estrada que me parecia muito interessante, ligava Sines a Espanha. Juntamente com a linha de comboio e o aeroporto poderia ser um interessante caminho económico. Pareceu-me tudo interessante, mas há muita incompetência e muito desleixo... e encobrimento das coisas. E não há consequências...

Nasceu em Beja, em setembro de 1975, em pleno PREC (Processo Revolucionário Em Curso). Como é que era o Alentejo da sua infância?

A população era muito mais jovem. Na minha rua, que era uma travessinha, havia crianças que dava para formar uma equipa de futebol. Todas as ruas tinham a sua equipa de futebol. As travessas iam todas dar ao castelo e nós jogávamos lá na relva. Volta e meia, vinha o guarda de mota correr connosco.

Pensando nos seus filhos, a infância tinha outra liberdade?

Completamente. O meu filho mais velho ainda apanhou um pouco dessa liberdade porque cresceu em Beja. Ele veio para Lisboa, já acabou a faculdade, e continua ligado aos amigos de Beja, criou laços fortes. O mais novo vive aqui em Lisboa, não se brinca tanto na rua.

Tinha jeito para a bola?

Nenhum, era péssimo, ninguém me queria. Sou apaixonadíssimo por futebol...

E pelo Benfica.

Ah, sim!

Não acertava um golo?

Deus Nosso Senhor não me deu esse talento. Por ser tão mau jogador, chamavam-me "O Bailarina". Continuo a gostar de jogar e continuo a não ter jeito.

O último sol de verão entra timidamente pela janela. António está sentado junto à mesa da sala. Irrequietos, os dedos ora passeiam pelo tampo, ora se entrecruzam como se procurassem o melhor aconchego.

Foto: Mariana C. Silva

Tem mãos de quem toca guitarra.

– Tenho? Por causa das unhas?

Levanta as mãos no ar, observa-as: "Tenho a palma muito grande e os dedos muito curtos. São meio estranhas".

Estranho deveria ser um adolescente gostar de fado. Como é que vivia isso?

Tinha de ouvir na clandestinidade. À medida que a malta ia percebendo que ouvia fado, que cantava fado, não escapava às bocas. O fado não era bem-visto. E eu tinha logo o gosto pelo fado e pela música tradicional do Alentejo. Agora, a música tradicional está na moda e há muitos miúdos a cantar, mas na minha altura era impensável um miúdo cantar isso. Era suposto ouvir outras coisas. Na verdade, eu ouvia de tudo, mas fazia as minhas escolhas.

Vem de longe o afinco em caminhar seguindo a própria cabeça?

O que mais odeio é carneirada! Sempre tentei fugir a isso. Na juventude, a malta ia toda ao bar da moda e eu sempre tentei contrariar esses movimentos.

Voltemos à taberna do Sintra. Qual é a memória que não esquece?

Era uma taberna muito antiga. O vizinho Sintra estava lá todos os dias, aquilo foi sempre a vida dele. Havia dois lares na rua. De manhã, os velhotes vinham todos para o mata-bicho. Ficavam ali à conversa com o vizinho Sintra. Não havia comida, mas lembro-me que havia aqueles ovos cozidos em cima de sal e pastilhas Gorila e chocolates Regina para os miúdos. Eu ia lá ter com os velhotes e eles davam-me um copo igual ao deles, mas o meu tinha gasosa. Tinha uns cinco anos, fazia brindes e cantava com eles, todo contente.

Estava traçado que a música faria parte do seu caminho?

Acredito que sim. Sabia que ia viver da música.

Da música e para a música?

Sim.

Quantos concertos faz, em média, por ano?

Mais de 100. A partir do próximo ano, por opção, vou fazer um pouco menos. Se a 100 concertos somarmos um dia para a ida e outro para o regresso, já vamos em 300 dias do ano.

Quer mais tempo para compor?

A composição surge a qualquer momento, pode surgir no carro, no restaurante. Acontece muitas vezes no teste de som, antes dos concertos. Muitas músicas surgiram nesse momento, estou meio distraído e, de repente, aparece a música.

Inspira-se no que vê e no que vive?

As ideias para as músicas vêm daquilo que vivemos, daquilo que vemos. Às vezes, do livro que estou a ler.

Quem compõe, revela-se muito?

Há umas músicas que nos obrigam a despir mais e outras menos, depende se cantamos o que vemos ou o que sentimos. As letras são o que saem na altura. O que mais prazer me dá é cantar histórias.

Cante alentejano, fado e bossa nova. São os três pilares da sua música?

Há aquele processo de encantamento permanente, de ouvir tudo. E há essas influências permanentes, mas não as separaria em três grupos. No fundo, é a música lusófona, também há as mornas e as coladeiras de Cabo Verde, o semba de Angola. Também gosto muito de jazz, música hispânica, a América do Sul encanta-me.

A sua identidade musical é fruto de várias influências. Por ouvir muita música diferente?

Por não ter a cabeça formatada com separadores. O meu primeiro disco traz fados, estava a ganhar experiência de estúdio. No segundo disco já tive outras influências. Se fosse ouvir o que as pessoas na altura me diziam, tinha ficado fadista. Não sei o que teria sido, mas não seria o que sou. Temos de ser honestos com aquilo que pensamos.

É verdade que gosta muito de viajar pela América do Sul?

É o sítio que mais gosto no mundo! Gostaria de fazer a estrada que vai da Patagónia ao Alasca. Os Estados Unidos e o Canadá também me fascinam. Normalmente, as digressões nos Estados Unidos são de carro, é espectacular.

Aproveita os concertos para conhecer?

Odeio aeroportos, mas gosto muito de viajar. Salvo raras excepções, faço sempre questão de me perder nas cidades.

É muitas vezes reconhecido na rua?

Ainda há pouco tempo, no Algarve, parámos numa praia para almoçar e, no restaurante, estava uma família japonesa que tinha ido ver um concerto meu no Japão e que até tinham tirado uma fotografia comigo. Também já aconteceu em sítios improváveis, tipo em Oslo, estar num restaurante e, de repente, tocar uma música minha. Digo logo a banda-sonora neste sítio é uma merda! (Risos)

O sol acerta na bicicleta de ginástica que repousa junto à janela. Ao lado da televisão, o piano. O violão. O telemóvel toca em silêncio, não atende. O sotaque do Alentejo adoça-lhe as palavras. Fez há dias 47 anos, cabem-lhe os louros de ser um dos maiores autores e intérpretes portugueses do nosso tempo. No dia do aniversário, os amigos ofereceram-lhe uma edição limitada de um livro de fotografias da conceituada Annie Leibovitz, americana que tem retratado as principais celebridades do nosso tempo. Cada página, meio metro de altura. O livro em cima de uma mesa própria, no centro da sala. Ali, sempre a ser folheado. Degustado.

Quando está em palco, o que é que vê no público?

Vejo pouco. No último concerto, em São João da Madeira, houve uma pessoa que caiu numas escadas. Parei e pedi para acenderem as luzes, para perceber como é que a senhora estava. Nos espectáculos a solo, tenho tendência para interagir mais com o público, até peço para não baixarem tanto a luz.

Onde é que nunca tocou e gostaria de tocar?

Gostava de conhecer melhor Itália, é dos poucos países na Europa que não conheço bem. E gostava de ir à Nova Zelândia.

O Carnegie Hall foi a sala mais incrível onde já tocou?

Já toquei em muitas salas fantásticas, mas essa é a mais emblemática. Toquei duas vezes na Elbphilaharmonie, em Hamburgo, que é lindíssima. As pessoas vão aos concertos, muitas vezes, só para ver a sala!

Está de malas feitas para o Luxemburgo. O que é que espera do concerto na Philharmonie?

Já lá toquei, é um sítio onde há sempre muitos portugueses na plateia. Espero montar um concerto do qual as pessoas saíam satisfeitas, isso é o mais importante.

É um público que sabe as letras de cor?

Sabe algumas.

Mundo afora, encontra muitas plateias povoadas de portugueses?

Nuns sítios mais e noutros menos, mas há sempre um português. Até numa aldeola recôndita da Noruega, tivemos um português na plateia! Um senhor que tinha ido num barco para a apanha do bacalhau e que tinha acabado por ficar por lá.

Foto: Mariana C. Silva

São concertos de saudade?

Há diferentes tipos de emigração. Ainda há uma emigração que vive em bolha, fechada na comunidade e pouco integrada. E agora há uma emigração de jovens formados e integrados. Em Londres, numa sala cheia, acabei por perceber que 95 por cento do público eram portugueses jovens, chegados há pouco a Inglaterra.

Tocar em Beja continua a ser especial?

O ditado diz que "santos da casa não fazem milagres", mas gosto muito. É diferente, estou na minha terra. Tocar no Pax Julia, é tocar no teatro onde em miúdo ia ver espectáculos de magia, os artistas que apareciam na televisão...

Tem o peso da memória?

Isso e os amigos todos na plateia.

Ainda é o Tó Zé?

Ainda. (Risos)

Caetano Veloso disse que ouvi-lo é "de arrepiar e fazer chorar". Foi o melhor elogio que já recebeu?

Tenho tendência a relativizar o bom e o mau. Não tenho redes sociais, mas às vezes os amigos enviam-me prints do que se diz na Internet.

Com as redes sociais, toda a gente tem um palco?

Há pessoas que se esticam demasiado, esquecem-se que aquela mensagem vai chegar a uma pessoa. Falta a delicadeza, estamos a perder o cuidado com o próximo. A coisa que mais me entristece é não nos lembrarmos que podemos magoar alguém.

E os seus filhos fazem-lhe muitos elogios?

Zero! Não querem saber! O mais velho, como agora quer fazer música, está mais ligado. Tirou ciências da comunicação, mas gosta de tocar e de escrever. No último disco, até gravei uma música dele e com ele, mas não sei o que quer fazer, não falamos muito disso.

Ser pai muda qualquer pessoa?

Depende da altura em que somos pais. Estava mais preparado para ser pai quando nasceu o João do que quando nasceu o Diogo. Quando o Diogo nasceu, eu tinha 23 ano, e quando o João nasceu, tinha 35. Foram experiências muito diferentes... Ainda mais, o Diogo tinha um ano e tal quando me mudei para Lisboa, só estava com ele nos fins-de-semana em que era possível. Quando se é pai mais velho, temos outra sabedoria. Felizmente, temos todos uma relação espetacular.

Disse em várias entrevistas que a sua vida mudou com um disco de João Gilberto.

O disco dele que me marcou mais foi "João Voz e Violão". Foi encontrar por acaso algo que não estamos à procura e que é exatamente aquilo que precisamos. É saltar etapas, é chegar ali e perceber que agora é dali para a frente.

Como é que se cruzou com esse disco?

Comprei. Nesse dia, comprei dois discos muito importantes para mim: o último do João Gilberto e o primeiro do Zeca Afonso. O do Zeca chama-se “Baladas e Canções”, é só ele e o Rui Pato na viola. O do João Gilberto é apenas ele e a viola.

Andava à procura do essencial?

Sou muito de 'keep it simple'. O truque é não complicar. A música precisa de respirar. Fico com falta de ar quando ouço música com demasiada informação.

Já vamos ao seu disco "António Zambujo Voz e Violão". Agora, voltemos lá atrás: o que é que a sua avó disse quando, em 2000, fez as malas e veio para Lisboa?

Escreveu-me uma carta que eu não acredito ter perdido... Tenho muita pena de não a ter guardado. Lembro-me que a minha avó desejava-me muita saúde e felicidade, que eu conseguisse sempre superar até as minhas expectativas. Ela gostava da música que eu fazia, ouviu até ao terceiro disco.

É parecido com ela?

Completamente! A maneira de ser, a forma de estar, de me relacionar com os outros é muito dela. Os meus estavam a trabalhar e eu estava sempre com a minha avó. Para o bem e para o mal, a minha avó é a responsável pela minha vida. Dos meus primos também. Ela era muito séria com as pessoas, o meu pai também era.

O que é que os seus pais faziam?

Eram funcionários públicos. O meu pai na educação e a minha mãe na segurança social. O meu pai já morreu.

A sua mãe ainda vai aos seus concertos?

Este ano já foi a uns quantos!

E faz muitos comentários?

Não diz nada.

A avó Joaquina gostava muito de o ouvir. E ele chegou a cantar no lar, onde ela acabou os dias. Partiu no dia seguinte a ele arrecadar dois Globos de Ouro. Não esquece a música que cirandava pela casa nem a sopa de tomate, tão-pouco as fatias de ovos.

Passado, presente, futuro. O que é que lhe ocupa mais tempo?

O presente. "O passado é inútil como um trapo", como diz Eugénio de Andrade. Temos de nos focar no agora. Só assim conseguimos construir um futuro melhor.

A Nina Simone disse numa entrevista "escolhi reflectir o tempo em que vivo". Faz o mesmo?

Hoje em dia, em vez de se dar muita opinião, devia-se pensar mais. Fala-se com pouco cuidado, da boca para fora, falta reflexão. Quando falamos de política, temos de ter atenção. As figuras mediáticas devem ter uma opinião formada sobre as coisas.

Sobretudo em tempos desafiantes como os que vivemos?

Faz-me confusão como é que há pessoas que dizem "ai, eu não gosto de política". Eu adoro política, é a nossa vida. As pessoas perdem mais tempo a fazer scroll no instagram do que a ler jornais... Não entendo... Reage-se com pouca ponderação e pouco pensamento.

E as indignações passam depressa?

A indignação passa rapidamente... para outra indignação.

Muitas das suas canções falam desse tema inesgotável que é o amor. É um homem de paixões?

Sou.

Em miúdo, escrevia cartas de amor?

Não. Na verdade, nunca me declarei a uma pessoa. Sempre fui muito tímido, envergonhado, sempre tive pouca coragem para me lançar...

Tem de ser a cantar?

Ou a conversar... Tem de haver umas voltas que me ajudem.

A solidão é um bicho-papão?

Quando é opção, é ótima. Adoro ficar sozinho em casa. Quando não estou em digressão, tenho uma rotina que é ir levar e buscar o meu filho à escola. O resto do dia gosto de ficar em casa, sabendo que se me apetecer posso ligar a um amigo e ir almoçar. Mas se vivesse a solidão por obrigação, não sei se seria tão bom...

Na estrada, sente-se sozinho?

Sinto-me muito sozinho no fim dos concertos. Há um poema que a Amália cantava que diz "Se amei e honrei o povo, Meu Deus porque estou tão só". Para mim, é contranatura, depois do concerto, ir assinar discos. É injusto para o artista estar duas horas em cima do palco a dar tudo e depois ter de ir para a rua dar autógrafos.

O que é que gosta de fazer quando o concerto acaba?

De beber uma cerveja gelada. Sozinho ou com a banda, tenho de beber uma mini.

Tem muitos hábitos desses?

Sou muito organizado. Tenho um método de trabalho e gosto que seja cumprido.

E o que é que faz antes de entrar em palco?

Benzo-me. O que é estranho porque nem sou muito católico.

Há alguma música que seja impossível não cantar num concerto?

Há várias! Tenho sempre de cantar "O Pica do 7", claro. Mas depende dos sítios. No Brasil, tenho de cantar sempre o fado, "Eu já não sei", que gravei há uns anos, com a Roberta Sá. E as músicas do Chico Buarque, principalmente, "Valsinha".

Como é conhecer o Chico Buarque?

É incrível!

"E só com uma voz e uma guitarra eu fiz parar a rua inteira". Assim canta e assim faz. Qual é a sensação?

É bom que as pessoas gostem daquilo que fazemos, não é?

O último disco, "António Zambujo Voz e Violão", é a tal busca pelo essencial?

Sim, é cíclico. Ao longo dos discos, fui acrescentando camadas até que cheguei ao penúltimo disco. Chama "Do Avesso" porque é completamente ao contrário do que tinha feito até aí, tem guitarras eléctricas, orquestra sinfónica, produtores diferentes... Cheguei ali e senti que tinha chegado ao ponto em que, a qualquer momento, podia explodir e voltar ao nada. Então, tive necessidade de voltar ao princípio. E, na verdade, todas as músicas nascem da mesma maneira, eu sozinho com a guitarra. O processo criativo é sempre o mesmo, depois vamos é acrescentando camadas. Senti que devia ficar pelo início de como as músicas são feitas, sem acrescentar nenhuma camada.

No próximo disco, volta às camadas?

Agora, é o recomeçar do ciclo.

A música portuguesa está a atravessar um bom momento?

Espectacular! Mas sempre esteve, agora tem é mais visibilidade.

Como é que vê a emergência de novos talentos, muitos na área da escrita e no feminino?

Há muita gente com qualidade a surgir e há muitos sítios onde se pode mostrar a música. As rádios estão a fazer um óptimo trabalho, é pena não termos uma televisão a ajudar. Os canais generalistas são todos tenebrosos e tenho muita pena que assim seja. Há festivais para todos os tipos de música e mesmo nos festivais main stream há um palco para uma banda que não tem de ter uma multidão a assistir. Isso é muito bom!

Os programas de televisão do género do "The Voice" têm um impacto importante?

Acho que não. O "The Voice" é um momento no início de carreira, é um programa de entretenimento, não faz de ti uma estrela. Pode acontecer, mas... O Fernando Daniel, por exemplo, passou de concorrente a mentor.

O palco é a sua terra?

É onde mais gosto de estar.

O confinamento foi ficar sem chão?

Foi uma loucura! Foi bom porque fomos todos para Porto Covo, mas assustador porque não sabia quando é que ia voltar a tocar. E já somos uma equipa grande, muitas famílias que dependem disso...

Da adega do Sintra a senhor comendador. A salas cheias no mundo inteiro. Sonhou com isso?

Não, nem penso nisso. É andar e tocar sem grandes deslumbramentos.

Para onde vai?

Agora, vou buscar o meu filho à escola. Amanhã, logo se vê.

Está na hora. A porta a bater com estrondo. E logo um meio grito: "Não acredito! Deixei as chaves dentro de casa!" Vasculha os bolsos: "Ficaram lá dentro. E agora?" Amanhã, é sempre um desafio.

O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

No próximo dia 4, Ana Moura regressa a uma sala luxemburguesa e canta em Mondorf-les-Bains. Numa entrevista por telefone, a cantora lembra o entusiasmo de outras passagens pelo Grão-Ducado, fala do que tem sido a digressão e do modo como vai conhecendo outras culturas através das reações do público à sua música. Recorda Prince com saudade, confessa o que pretende transmitir quando canta e explica por que razão ser feminista é tão positivo.
Ana Moura.