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Ana Moura “Guardo memórias muito felizes do Luxemburgo”
Cultura 11 min. 02.03.2018

Ana Moura “Guardo memórias muito felizes do Luxemburgo”

Ana Moura.

Ana Moura “Guardo memórias muito felizes do Luxemburgo”

Ana Moura.
Foto: Frederico Martins
Cultura 11 min. 02.03.2018

Ana Moura “Guardo memórias muito felizes do Luxemburgo”

Paulo Pereira
Paulo Pereira
No próximo dia 4, Ana Moura regressa a uma sala luxemburguesa e canta em Mondorf-les-Bains. Numa entrevista por telefone, a cantora lembra o entusiasmo de outras passagens pelo Grão-Ducado, fala do que tem sido a digressão e do modo como vai conhecendo outras culturas através das reações do público à sua música. Recorda Prince com saudade, confessa o que pretende transmitir quando canta e explica por que razão ser feminista é tão positivo.

Volta a cantar no Luxemburgo dia 4 de março. Como recorda os anteriores concertos aqui?

Lembro-me que fomos sempre muito bem recebidos. Existe uma comunidade portuguesa muito grande no Luxemburgo e é provavelmente o sítio fora de Portugal onde sentimos que temos mais portugueses na plateia. E por isso também somos recebidos de um modo muito acolhedor e guardo sempre memórias muito felizes.

Imagino que tenha expetativas semelhantes para a próxima presença aqui: sala cheia com muita gente entusiasmada...

Exatamente, é isso que esperamos.

Esteve há pouco tempo na Polónia e esta digressão passa também, por exemplo, pela cidade de Paris. Que experiências tem recolhido nesta digressão?

São as mais variadas. É muito bonito ter esta possibilidade de manter contacto com outras culturas, mesmo que seja só através dos concertos e pela forma como as pessoas reagem aos concertos, porque conseguimos perceber a cultura do país pelo modo como reagem. É muito interessante perceber isso. Como disse, por exemplo, no Luxemburgo temos sempre grande quantidade de público que é português, mas vamos ter uma tournée grandinha nos Estados Unidos em abril e aí, tirando Newark, com muitos portugueses, por norma serão muitos mais americanos. E aí já é diferente a resposta, é muito engraçado. No norte da Europa também, é diferente, é bonito perceber a diferença de culturas pela forma como reagem durante o concerto.

Ou seja, mesmo sem perceberem o idioma em muitos casos, reagem em função da voz, da presença em palco, da música...

Sim e pela forma como a música lhes toca e pelo modo como a emoção é passada e lhes chega.

Estes concertos que a levam pelo mundo fora, para lá de representarem um prazer pela sua profissão como cantora, também implicam fadiga e desgaste. Como é que procura contornar essa questão?

Não é fácil e comentava isso com a minha mãe, porque vim há pouco da Polónia e da Suécia e andámos a saltitar sempre de um lado para o outro. Muitas pessoas pensam que andamos a viajar e a conhecer os sítios e que é tudo muito divertido, muito bonito, mas por vezes é muito cansativo. Há pouco tempo para descansar, quando as distâncias são longas temos aviões para apanhar quase diariamente e temos de acordar cedíssimo. Depois, há aquela rotina que é, a seguir ao avião, chegamos, temos de almoçar, por vezes tenho de optar entre comer e ir para o hotel descansar um bocadinho. Pouco depois tenho ’sound check’, muitas vezes antes ou depois tenho entrevistas no local, depois tenho o concerto e, a seguir, ainda recebo as pessoas para autógrafos. Mais tarde, tenho de jantar. Há toda esta rotina que não é fácil de gerir e aproveito todos os momentos de que disponho para descansar.

Diria que se transforma numa pessoa diferente em palco ou nem por isso?

Há uma transformação, sim... Costumo dizer que, se estiver muito consciente daquilo que está a acontecer, torna-se muito difícil transmitir o que pretendo quando canto. Sinto quase como se entrasse numa dimensão diferente e, por isso, gosto de fechar os olhos, o que me ajuda a viajar para essa outra dimensão. Por outro lado, também não uso ’in ears’, o que a maioria dos artistas faz, porque isso me desfoca dessa concentração. Em mim tem esse efeito, noutras pessoas não terá. Não quero sentir-me demasiado programada, ou consciente do que se passa, para poder ir até esse espaço onde existe essa transformação e consigo transmitir aquilo que sinto quando canto.

E o que pretende transmitir?

Cada música tem a sua própria história, mas aquilo que pretendo transmitir é o que me vai na alma, a minha emoção acima de tudo.

Tem mencionado sempre que Amália Rodrigues é uma das suas principais referências. Sente a sua presença quando está em palco?

Em palco e não só. Sinto porque tenho este carinho e gratidão por aquilo que me ensinou e por aquilo que me passou.

O que significa para si esta vida de ser cantora?

Significa muita coisa: trouxe-me das maiores alegrias que já tive na vida e às pessoas que me rodeiam e fazem parte do meu núcleo familiar e de amizades. Trouxe-me aprendizagem e a forma de poder encontrar a minha própria identidade; trouxe-me contacto com outras culturas, conforme dizia há pouco, mas esse crescimento interior foi muito importante para mim e está associado a esta vida de cantora. Por isso me sinto tão grata pela vida que tenho.

Em relação ao fado, parece-lhe que, nos últimos anos, com uma diversidade de intérpretes, ganhou outra dimensão internacional e outra forma de penetração além-fronteiras?

Concordo. Nos últimos anos o fado tem sido muito falado além-fronteiras e não só, ganhou o prémio de património imaterial da Humanidade. Como temos um leque variado de intérpretes que conseguem mostrar diferentes coisas no fado, além-fronteiras há uma procura cada vez maior.

Foto: Frederico Martins

Entre as diversas partilhas de palco e colaborações em que esteve envolvida contam-se os Rolling Stones, Prince, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Herbie Hancock, entre outros. Pode falar um pouco sobre alguns desses episódios?

Sim, comecei por ser convidada pelos Rolling Stones quando vieram a Portugal. Convidaram-me para ir a palco com eles e depois para participar num projeto onde vários cantores de diversas áreas do mundo interpretam músicas dos Stones, mas com o seu próprio estilo. Essa experiência com eles foi incrível, porque nunca imaginei que um dia iria estar com os Rolling Stones. Partilhar o palco com eles foi incrível, até porque foi algo de último momento, eu não contava... Eles foram ouvir-me cantar a uma casa de fados e depois convidaram-me para ir a palco com eles. Além disso, gravei nesse projeto uma música chamada No Expectations que acabou por se tornar no meu lema de vida e de de estar na música: viver sem expetativas e aproveitar tudo o que me chegava, como este convite dos Stones, o outro do Prince ou dos outros nomes que referiu... Como dizia a Sophia de Mello Breyner, é viver na surpresa dos instantes e tenho sido muito feliz com essas experiências. Depois tive a felicidade de cantar com o Prince e desenvolver com ele uma amizade, visitá-lo várias vezes em Paisley Park, onde tinha o seu estúdio e fazia sessões com músicos que o rodeavam e eram sempre experiências muito gratificantes.

O desaparecimento de Prince representou um rude golpe para todos...

É uma perda muito grande e muito triste. O legado dele fica, a música fica, mas a perda é enorme.

Também encontra tempo para assistir a concertos de vez em quando?

Encontro e preciso disso também para me inspirar com outros cantores.

Diga-me um ou dois exemplos de artistas que tenha visto ultimamente?

Há duas semanas fui a Madrid ver uma cantora de flamenco que tem sido a banda sonora das minhas viagens e que me tem acompanhado. Chama-se Rosalía, o seu trabalho é recente e tem arranjos muito diferentes. Revejo-me na forma como ela se apresenta no flamenco, tal como eu me apresento no fado. Ela tem um canto tradicional, mas os arranjos e o músico que convidou para produzir o disco dela, o espanhol Raül Jeffree, que vem do rock e da pop, saem um bocado do flamenco. É muito interessante esse cruzamento musical e ela tem em palco uma entrega profunda. Revejo-me nessa profundidade e nessa tradição, algo que está também em mim.

O que considera ser a face melhor e pior do sucesso?

O melhor é esta possibilidade de poder fazer aquilo de que mais gostamos e, ainda por cima, fazer pessoas felizes com isso. Sou muito feliz quando canto e sinto que há pessoas que são felizes com a minha música e não há sensação melhor. O reverso da medalha é, por exemplo, quando queremos passar mais despercebidos, em especial aqui em Portugal, quando queremos que a vida pessoal seja isso mesmo e é mais complicado porque as pessoas entendem que aquilo também faz parte da vida que deve ser exposta. Para mim a vida pessoal não é para ser exposta.

Depois de tantos prémios e de mais de um milhão de cópias vendidas de trabalhos seus, isso traz-lhe maior responsabilidade ou é só uma parte do seu desempenho?

Traz maior responsabilidade. Por exemplo, estou a ver o que faço como próximo trabalho e sei que tenho de oferecer mais e melhor de mim a quem me tem acompanhado e recebido desta forma. Dá-me também uma sensação de ter feito o melhor de mim até agora e isso deixa-me muito feliz.

Disse em várias entrevistas que se considera feminista. A igualdade entre homens e mulheres ainda está muito distante, mas parece-lhe que têm sido dado passos no bom sentido?

Estão a ser dados passos positivos e estamos melhor do que há uns anos, mas há muita coisa para fazer e é bom falar sobre isso. É preciso que as pessoas não confundam, porque a palavra feminismo quer só dizer igualdade de direitos, não é o hastear de uma bandeira...

Não tem carga negativa...

Isso mesmo, não tem qualquer carga negativa.

Há datas e plano para novo disco?

Já tenho um plano, embora não haja ainda datas e não possa revelar muito sobre o disco, porque está numa fase muito embrionária (risos).

PERFIL DE ANA MOURA

Foto: Frederico Martins


Ana Moura nasceu em Santarém, a 17 de setembro de 1979. Começou muito cedo a cantar e, aos seis anos, já entoava os primeiros fados, influenciada pelos pais, pela família e por aquilo que ouvia em casa: Zeca Afonso, Fausto, Ruy Mingas, muito fado e música angolana. Embora se afastasse um pouco do fado durante os tempos da juventude, Ana inscreveu-se aos 14 anos na Academia de Amadores de Música em Carcavelos, onde acabaria por formar a sua primeira banda, os Sexto Sentido, com a qual chegou mesmo a tentar a gravação de um disco.

Dedicava-se com mais frequência a ritmos modernos, mas não deixou de cantar alguns fados, sobretudo de Amália Rodrigues, sua maior referência de percurso artístico e não só. Ao cantar um fado num bar de Carcavelos, Ana Moura despertou a atenção do guitarrista António Parreira que lhe apresentou as primeiras casas de fado. Mais tarde, em plena festa de Natal onde se juntavam fadistas, a cantora iria conhecer Maria da Fé, fadista e uma das donas do Senhor Vinho, onde Ana passaria a cantar por convite da co-proprietária que ficara impressionada com o seu registo musical.

O entusiasmo ao seu redor foi crescendo com atuações em diversas casas de fado e Miguel Esteves Cardoso dedicou-lhe palavras elogiosas ao ouvi-la no Fados de Portugal, um programa de António Pinto Basto na RTP. Tozé Brito, administrador da Universal, vai então ouvi-la e apresenta-lhe uma proposta para gravação de um primeiro trabalho, Guarda-me a Vida na Mão, de 2003, que teve produção de Jorge Fernando. Seguem-se aplausos generalizados e entusiasmo crescente a cada atuação e colaboração, chegam as primeiras participações de âmbito internacional. No ano seguinte, Aconteceu é o segundo álbum da artista e Ana Moura passa a ter as primeiras digressões, atuando no Carnegie Hall em 2005.

A surpresa maior surge a partir de Tóquio quando Tim Ries, saxofonista dos Rolling Stones, toma conhecimento da voz de Ana Moura ao procurar o fado como género para integrar no Rolling Stones Project em que artistas de diversas latitudes interpretam temas da banda no seu próprio estilo. Brown Sugar e No Expectations são os dois temas que Ana Moura grava e irá mesmo interpretar este último em palco com a lendária banda britânica, depois de esta a ouvir cantar ao vivo.

Os encontros vão multiplicar-se e Ries irá mesmo compor uma música para um dos álbuns da cantora. As enchentes nas salas de concertos continuam, Ana recebe os primeiros prémios, as vendas refletem o seu sucesso e, em 2009, quando já vai no quarto trabalho de originais e atua em Paris, tem Prince na assistência. Segue-se uma colaboração que irá transformar-se em partilha de palco no Super Bock, Super Rock (2010) e numa relação de amizade até ao prematuro desaparecimento do músico.

Nomes como os de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Herbie Hancock vão estar associados aos tempos seguintes do seu percurso artístico, marcados por novos recordes de vendas, salas cheias e o estrondoso êxito de Desfado. O sexto álbum, Moura, deu continuidade à chuva de prémios e a voz de Ana Moura continua a atrair plateias pelo mundo fora. No próximo domingo, a cantora regressa ao Luxemburgo.


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