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Amália Rodrigues colaborou com a causa antifascista
Cultura 3 min. 23.10.2019

Amália Rodrigues colaborou com a causa antifascista

Amália Rodrigues colaborou com a causa antifascista

Foto: DR
Cultura 3 min. 23.10.2019

Amália Rodrigues colaborou com a causa antifascista

Bruno AMARAL DE CARVALHO
Bruno AMARAL DE CARVALHO
Revista Visão publicou investigação do jornalista Miguel Carvalho que revela que Amália Rodrigues foi vigiada pela PIDE e colaborou com comunistas e outros antifascistas. Recorde-se que há bem pouco tempo a decisão de dar o nome da cantora a uma rua na localidade de Differdange foi vetada devido às suas alegadas ligações ao regime salazarista.

Num mês como este, há 20 anos, Portugal despertava com a notícia da morte da diva do fado. Em Paris, a figura mais importante da literatura portuguesa, José Saramago, galardoado com o Nobel também em outubro mas do ano anterior, revelou que Amália Rodrigues “celebrada pelo salazarismo” fez chegar dinheiro ao Partido Comunista Português, então na clandestinidade. Foram estas declarações que despertaram em Miguel Carvalho a curiosidade de explorar a “faceta desconhecida” da cantora. Ao Contacto, o jornalista explica que guardou durante muitos anos recortes de jornais e que a partir de 2013 começou a dedicar algum do seu tempo livre a investigar em bibliotecas e arquivos.

A menos de um ano do centenário do nascimento de Amália Rodrigues, Miguel Carvalho publicou na revista Visão uma investigação com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian de mais de 60 páginas que recolhe os testemunhos de cerca de 80 pessoas. “Tinha a noção de que havia algum pano para mangas. Ou seja, de que a Amália não se teria limitado a acudir a uns pobrezinhos ou a umas famílias de presos políticos. Concentrei-me no período da ditadura e a dimensão do que encontrei ultrapassou tudo o que eu pudesse imaginar”, confessa o jornalista.

Mas Miguel Carvalho insiste que este trabalho jornalístico não pretende colocar qualquer rótulo na fadista. “Ninguém está aqui a dizer, nem eu o digo em parte alguma, que a Amália era de esquerda ou era antifascista. A verdade é que também não se pode dizer que ela se limitasse muitas vezes a atos meramente solidários e inconscientes”.

Desde o fim dos anos 40 até às portas do 25 de abril de 1974, a cantora manteve laços com a esquerda intelectual que se opunha ao regime e com muitos comunistas com a “consciência clara de que eram perseguidos e presos”. Na investigação são divulgados documentos oficiais que confirmam que foi vigiada pela PIDE, a polícia política de Salazar, por suspeita de apoio aos comunistas. Entre eles, está um relatório de 1939 que incluía o nome da fadista na denominada “Organização Comunista no Fado”.

“Quem canta como cantou o Fado de Peniche”, como ficou conhecida a letra de David Mourão Ferreira, “quem canta em situações difíceis poetas como o Sidónio Muralha ou poetas espanhóis perseguido pelo franquismo” não podia ser inconsciente do que se passava. O jornalista recorda que a fadista admitiu em várias entrevistas “que fornecia determinado alinhamento musical à televisão quando lá ia e que depois chegava e cantava outras coisas”.

A polémica em Differdange

O posicionamento político de Amália Rodrigues foi objeto de apaixonados debates durante décadas. Em maio deste ano, a polémica chegou a Differdange com a autarquia a recusar dar o nome da fadista a uma das suas ruas por alegadamente ter colaborado com o regime fascista em Portugal. É um dos exemplos dados por Miguel Carvalho na investigação publicada na Visão de como “há muita gente ainda aferrada a uma narrativa que foi construída sobre a Amália”. Por isso, o jornalista não ficou surpreendido quando soube da notícia dada pelo Contacto.

“Esta investigação também é feita no pressuposto de que estes preconceitos não caíram. Eu próprio encontrei gente que ainda hoje tem dificuldade em aceitar que a Amália colaborou com antifascistas. Um dos depoimentos é de Maria Teresa Horta que não consegue conciliar o facto de uma das suas melhores amigas de sempre, a Alda Nogueira, lhe ter contado um conjunto de coisas que a Amália fez em nome dos presos políticos e dos grevistas”.

O jornalista partiu para a investigação com o objetivo de quebrar essa ideia que considera “preconceituosa e extremamente injusta”. Embora considere “inegável” que tenha havido muitas situações “ambíguas”, também versos a Salazar, considera que muita gente tem uma “visão santificada” da Amália e que “reduzi-la à condição humana, conhecer as suas contradições, mesmo com o génio musical que foi, torna tudo mais compreensível”. E recorda as palavras do musicólogo Rui Veira Nery, “a Amália era tão inteligente que às vezes se fazia de burra”.

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