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Na Cidade do Luxemburgo os túmulos falam
Cultura 9 4 min. 01.11.2021 Do nosso arquivo online
Património

Na Cidade do Luxemburgo os túmulos falam

No cemitério de Notre-Dame, no bairro de Limpertsberg, cerca de sessenta túmulos têm um QR code.
Património

Na Cidade do Luxemburgo os túmulos falam

No cemitério de Notre-Dame, no bairro de Limpertsberg, cerca de sessenta túmulos têm um QR code.
Foto: Anouk Antony
Cultura 9 4 min. 01.11.2021 Do nosso arquivo online
Património

Na Cidade do Luxemburgo os túmulos falam

No cemitério de Notre-Dame, no bairro de Limpertsberg, cerca de sessenta túmulos têm um QR code. Basta usar a aplicação que lê o código para descobrir um pouco mais sobre a vida de quem repousa sob a lápide.

(Patrick Jacquemot c/ David Thinnes. Edição: Paula Freitas Ferreira)

Visitar o cemitério de Notre-Dame com Robert L. Philippart é como abrir um grande livro de História. É ele quem defende o património Unesco da capital e é também um verdadeiro conhecedor das necrópoles da cidade. É até membro de um grupo de trabalho que está comprometido com a preservação dos túmulos "notáveis" espalhados entre as mais de 15 mil lápides da Cidade do Luxemburgo. 

Entre os diferentes cemitérios da capital são já 203 os túmulos protegidos. Todos os anos, cerca de quinze são adicionados à lista. Só o cemitério de Notre-Dame, a dois passos do campo de Glacis, possui 135 lápides preservadas. Um dos túmulos mais famosos do cemitério é o de Friedhelm Wilhelm Voigt, o impostor alemão que em 1906 se disfarçou de oficial militar prussiano, reuniu vários soldados sob o seu "comando" e "confiscou" mais de quatro mil marcos de um tesouro municipal.

Este episódio serviu de inspiração para a peça (e filme) "O Capitão de Köpenick". E se após a sua morte em 1922, no Luxemburgo, Voigt foi sepultado numa sepultura modesta, a cidade decidiu erigir ao antigo sapateiro um verdadeiro monumento no final da década de 1970. “Ainda hoje os turistas alemães vêm descobrir o túmulo do homem que nasceu em 1849 no lado prussiano da fronteira”, comenta Robert L. Philippart.

Mas não há tempo a perder, pois o túmulo de Paul Eyschen está a poucos passos de distância. O ex-político, que foi Ministro do Estado de 1888 a 1915, está instalado numa imponente estrutura em forma de... caixão. "Eyschen não teve descendentes e não foi enterrado na sepultura da família em Diekirch. Até hoje, é o único ministro do Estado do Luxemburgo a ter a sua própria sepultura", relata o historiador. Mas não se enganem os visitantes: Paul Eyschen não jaz "no ar", como o monumento pode sugerir, mas a 1,50 m de profundidade, como todos os outros mortos à sua volta.

Mas quem quer que caminhe pelos becos do cemitério de Notre-Dame - com uma extensão de cinco hectares -, não terá provavelmente a sorte de ter um guia como Robert L. Philippart. Felizmente, a cidade pensou na importância dessa informação para quem procura as “famosas” lápides. É por isso que existem 59 túmulos "históricos" com um código QR colocado discretamente no mármore. É apenas necessário um smartphone, um simples vislumbre do pequeno quadrado e num instante sabemos mais, através de texto, imagem ou som, sobre a pessoa que ali se encontra sepultada.

Assim, ao visitar o túmulo de Jean-Antoine Zinnen, o visitante curioso ficará surpreso ao ouvir a melodia de “Ons Heemecht” (Zinnen é o compositor do hino nacional do Luxemburgo). Os mais observadores notarão que algumas notas da partitura estão gravadas na lápide. É assim que se desenrola este passeio instrutivo, que não tem, no entanto, nada de mórbido.

O grupo de trabalho, do qual Philippart faz parte, é composto por membros de sete diferentes departamentos da cidade. Intervém quando a concessão de uma sepultura não é renovada ou é abandonada pela família. Cabe ao grupo decidir se o município deve assumir a manutenção do túmulo esquecido. São então avaliados vários critérios, como a reputação do falecido, a história ou o valor artístico da sepultura, entre outros.

Por exemplo, o mausoléu da família Wester está agora a cargo da cidade. Esta é uma forma de homenagear a memória de Jacques Wester (um médico de Differdange que morreu em 1906 e que foi particularmente gentil com os trabalhadores feridos ou doentes), mas também de garantir a conservação dos vitrais Art Déco do monumento, assinados por Sylvère Linster.

Às vezes, para restaurar uma lápide específica, é necessário um trabalho profundo. Até agora, o grupo contou sempre com a generosidade do colégio de vereadores, "às vezes até para contas com cinco dígitos". Mas esse é o preço da preservação do património local.

Uma peculiaridade do Luxemburgo: enquanto em outros países os monumentos funerários abandonados podem ser usados por novas famílias, nos cemitérios da capital isso não é possível. "Ossos e lápides permanecem juntos", explica Robert L. Philippart. No entanto, se uma sepultura não merecer proteção após o fim da concessão, os restos mortais serão removidos e transportados para o ossário de Fetschenhof.

(Edição: Paula Freitas Ferreira)  

(Artigo original publicado na edição francesa do Luxemburger Wort)

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