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Abri'Lux. Uma homenagem luso-luxemburguesa à Revolução dos Cravos

Abri'Lux. Uma homenagem luso-luxemburguesa à Revolução dos Cravos

Foto: Marlene Soares
Cultura 10 min. 24.04.2019

Abri'Lux. Uma homenagem luso-luxemburguesa à Revolução dos Cravos

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Há músicos portugueses, luxemburgueses e um norte-americano, vindos da área do jazz e da clássica, no projeto Abri’Lux, que presta homenagem à Revolução portuguesa e aos seus cantautores. Sob a liderança de Marc Demuth, apresentam-se esta quinta-feira na Philharmonie e explicam como foi a experiência de descobrir o que consideram “autênticas joias” de música e palavras que vão de Zeca Afonso a Sérgio Godinho.

A pintora Vieira da Silva imortalizou a data num dos seus mais famosos quadros em que se lê: “A poesia está na rua”. Sophia de Mello Breyner Andresen descreveu-a neste poema:

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.

Tanto tempo depois, não é preciso ser português para associar o 25 de Abril de 1974 a uma celebração poética e musical. Quando Marc Demuth fala sobre o projeto Abri’Lux, que esta quinta-feira, precisamente o dia em que a Revolução portuguesa completa 45 anos, homenageia o 25 de Abril na Philharmonie, o tom é de fascínio e encanto. "Não conheço tanto como gostaria sobre a Revolução portuguesa, na escola não era um tema de estudo. Mas aprendi algumas coisas a partir de 2004, quando toquei com a Sofia Ribeiro. Contaram-me sobre os efeitos e a duração da ditadura. Senti-me fascinado por este fenómeno de uma Revolução tão tardia na Europa e, sobretudo, pela incrível não-violência. Mas também pelo papel especial que tantos artistas representaram nesse movimento, como foi o caso de Zeca Afonso: é impressionante como este personagem viveu para a Revolução e passou mais tarde a mensagem às gerações seguintes".

Casado com uma portuguesa desde 2008, Demuth relembra como esse foi um passo para uma descoberta iniciada antes, nos oito anos a tocar com Sofia Ribeiro. "Foi assim que tomei contacto com a cultura e a música de Portugal, o fado, a música popular, incluindo Sérgio Godinho, José Mário Branco, Zeca Afonso, além da música tradicional", explica. "Fui tendo diversos projetos com músicos portugueses, como a Luísa Vieira. Com ela e o pianista norte-americano George Lettelier (que viveu quatro anos no Porto) criei o trio Inuk. Nessa altura tocávamos temas de jazz e um pouco de música portuguesa e brasileira. Após um concerto de Cristina Branco, a Philharmonie pediu-me, em 2016, para criar um projeto e, aí, pensei que seria preciso termos só compositores portugueses, por isso aumentei o grupo com músicos da área clássica, mas que também tocam muito jazz e improvisam, chamando a esse projeto ’De Amália a Godinho’, com forte carga do fado. Depois, a Luísa convidou-nos para irmos a Portugal, pois tem lá um projeto com o José Rui, subdiretor do Centro Cultural em Tondela, onde fazem um concerto anual por ocasião do 25 de Abril. Aí reajustámos o reportório para termos uma relação mais direta com a Revolução e foi assim que nasceu, nesse ano de 2016, o projeto Abri’Lux, que apresentámos em Tondela e na Guarda".

Um projeto que tem continuado o seu percurso de homenagem e divulgação. "Por exemplo, há dois anos tocámos em Dudelange no dia 25 de Abril e agora vamos tocar na Philharmonie, no dia da Revolução portuguesa, com este programa que lhe serve de homenagem. Agora somos oito, porque temos o José Rui como narrador para recitar poemas relacionados com a data, escritos por autores como Hélia Correia, José Carlos Ary dos Santos ou Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros". 

Um filho de Abril

Em conversa telefónica a partir de Portugal, José Rui Martins fala sobre a sua ligação especial ao 25 de Abril. "Da minha parte há um lado afetivo e direto à Revolução. Não era uma pessoa politizada na altura do 25 de Abril, mas cedo me tornei um filho de Abril do ponto de vista de sentir as grandes transformações que eram possíveis a partir daquela data. E, depois, pensar também que há um país novo a construir e participar nele enquanto jovem, criando na altura uma companhia de teatro, hoje profissional, e sempre acompanhado pelas canções dos cantautores, fascinantes e intemporais, mantêm-se contemporâneas no sentido e na mensagem, além da sua qualidade musical. Este convite foi muito agradável por já ter o projeto com a Luísa e porque é emocionante ver músicos internacionais a universalizarem os nossos cantautores, a nossa poesia, a nossa música".

Vocalista e flautista, Luísa Vieira conta a história na sua perspetiva. "O Inuk já existia como trio, mas para esse espetáculo em 2015 construímos um reportório de raiz relativo às comemorações do 25 de Abril. Enquanto líder do projeto, o Marc chamou músicos que, como ele, têm ligações a Portugal, casos do George Lettelier ou do Paulo Simões, com quem já colaborava, mas também outros do jazz e da clássica sem afinidades com o país. Havia a curiosidade em saber como iriam receber a música sem entenderem as palavras, mas perceberam de imediato qual era o sentido por detrás do texto e a importância da data em questões em que se reviam, como a luta contra a ditadura e noutras lutas".

O pianista George Letellier, natural de Boston e residente no Luxemburgo, fala dos seus tempos no Porto e das ligações a Portugal, aproveitando para treinar o seu português. "Fui casado com uma portuguesa, passei pelo país de um modo rápido em 1982, mas só lá vivi e trabalhei como professor durante quatro anos. Nessa fase tive oportunidade de conhecer muitos músicos do Porto com quem trabalhei, como Mário Santos, Pedro Abrunhosa e outros da escola do jazz. Até me convidaram para fazer parte dos Clã, mas recusei porque não tinha hipótese naquela altura. E tive os primeiros contactos com as canções do Sérgio Godinho, mas sem as tocar. Em 1995 vim para o Luxemburgo e só quando cheguei aqui, participando em projetos de Marc Demuth, ele me apresentou a Luísa e assim me aproximei mais desta música portuguesa", aponta.

"Mas, mesmo para quem não é português, a música é linda, tem melodias muito bonitas e o projeto é ótimo, é o meu preferido, um som maravilhoso e adorável", refere, misturando já o inglês com o português. "E nada tem a ver com as nacionalidades, porque toda a gente gosta daquela música que reúne as pessoas à sua volta e ser um projeto multinacional torna-o ainda mais interessante. Fizemos novos arranjos para essas músicas e isso tornou-se um desafio aliciante, porque passei a tocar algumas coisas que já gostara de ouvir em Portugal, mas de outra maneira. Era muito fixe", comenta.

Marc Demuth reconhece o seu fascínio pelas canções e não só. "Música e texto são muito belos. Falo português, entendo bem o idioma e compreendo o sentido do que foi escrito, da sua relação com o 25 de Abril e do modo de vida antes e depois. As músicas que interpretamos, de Zeca Afonso a Sérgio Godinho, passando por Fausto ou por José Mário Branco, são composições fascinantes pelas suas harmonias complexas e palavras profundas. Infelizmente, são músicas menos conhecidas fora da comunidade portuguesa e esta é também uma forma de dar a conhecê-la. Para nós, músicos mais habituados ao jazz, ficou a sensação de descoberta de pequenas joias".

Luísa reconhece que "os cantautores portugueses foram uma descoberta para eles, pois não os conheciam". Além disso, recorda como "adoraram" que os levasse a Portugal "e fez todo o sentido convidar o José Rui Martins, ator e encenador que também declama neste espetáculo". "Podia ter sido pontual, mas ficou porque traz todo o sentido e a força da palavra com os poemas que escolhe e têm tudo a ver com a Revolução", acentua. E acrescenta: "Estudei no Porto e vim viver para Tondela, onde percebo que, apesar de ser uma cidade pequena, passam esses valores aos jovens, por exemplo, através da Associação Cultural. Talvez noutros sítios não exista essa perceção por parte dos mais jovens".

Por entre as contradições de uma democracia

Letellier lamenta que "não haja mais oportunidades para fazerem espetáculos juntos por esse mundo fora", até porque Luísa e José Rui estão a viver em Portugal. "Mas ensaiamos muito quando estamos próximos dos concertos, embora muitas vezes se trate apenas de recuperar a memória do que já fizemos, porque o reportório não sofre grandes alterações".

"Já fiz outros espetáculos com o grupo e será extraordinário, para mim que faço sempre espetáculos no 25 de Abril e já fiz em Moçambique, será emocionante estar num país com uma comunidade portuguesa tão numerosa e partilhar também com os luxemburgueses algo que celebra um dia tão importante, cujo espírito, loucuras, sonhos, desenvolvimento, transformações e liberdade estão vivos, com todas as contradições que pode ter uma democracia", resume José Rui.

Sobre o conhecimento que os jovens têm acerca de como foi, do significado e do impacto exercido pela Revolução, José Rui indica: "Basta dizer a um jovem o que era a minha vida antes do 25 de Abril para que percebam a grande mudança neste país – vivo numa cidade onde só estudavam cerca de 50 pessoas cujas famílias podiam pagar o colégio particular, hoje temos um número de quatro mil estudantes". E exemplifica: "Aqui em Tondela estamos a fazer uma celebração sob o nome de netos de Abril, um espetáculo construído pelos jovens e que nenhum adulto sabe o que é, com a sensibilidade deles e as suas escolhas da música de intervenção a comandar tudo".

O cravo na espingarda

Para o ator e encenador, "o 25 de Abril renova-se a cada momento através da universalização que tem com pessoas que celebram em vários países. A Revolução de Abril tem muitas particularidades como o facto de ser ultra-poética com aquela imagem do cravo na espingarda ou uma transformação tão grande quase sem ser derramado sangue, nem terem existido vinganças pessoais ou políticas". Comprovando o caráter universal da Revolução portuguesa pelo mundo, José Rui revela: "No ano passado soube que até no Japão era comemorada! Isso fascina o mundo inteiro. O 25 de Abril não pode ser alvo de apropriação por parte de ninguém, pertence ao povo espalhado por todo o mundo".

E aproveita para deixar uma mensagem dirigida à comunidade portuguesa e não só no Grão-Ducado: "Espero que encham a sala e venham viver connosco algo tão bonito e tão multicultural que está expresso na fusão de culturas entre os músicos".

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