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A traição que fez estremecer a cortina de ferro
Cultura 4 min. 28.09.2019

A traição que fez estremecer a cortina de ferro

A traição que fez estremecer a cortina de ferro

Cultura 4 min. 28.09.2019

A traição que fez estremecer a cortina de ferro

O caso Gordievski chegou às manchetes dos jornais ocidentais ainda Gorbachov era presidente da União Soviética, e houve até quem sugerisse que a traição do espião do KGB contribuiu para o fim da Cortina de Ferro. O novo livro sobre o assunto entretém mas não é imparcial

No princípio dos anos 60, Kim Philby, o inglês que chegou a chefe da secção do MI6 em Washington, fugiu para Moscovo depois de ter sido exposto como agente do KGB. “O Espião e o Traidor”, isto é, Oleg Gordievsky, que foi ambas as coisas, é uma espécie de equivalente de Philby mas em sentido inverso.

O livro começa quando o russo, recentemente promovido à liderança da “rezidentura” do KGB em Londres, é chamado a Moscovo, onde não sabe se vai comparecer numa reunião de rotina ou ser interrogado e torturado como agente de longa data do MI6. Quem não conhece o caso chega a meio de “O Espião e o Traidor” sem saber se Gordievsky foi ou não desmascarado e acompanha o processo do recrutamento e da subida na hierarquia sempre da perspetiva do seu receio de ser exposto. O resultado é um livro absorvente do princípio ao fim.

Oleg Gordievsky, que hoje vive retirado em Londres e foi a fonte principal de Macintyre, é filho de um agente do KGB vindo da revolução de outubro. Nasceu rodeado de agentes, cresceu nos bairros onde viviam os agentes e andou em escolas em que as crianças eram como ele filhas de agentes. O seu primeiro casamento foi com uma agente e o segundo com a filha de um general do KGB. Chegamos a estranhar que os serviços secretos ocidentais não tenham procurado infiltrar-se neste meio, onde poderiam acompanhar o percurso da maioria dos espiões da União Soviética desde o berço.

O herói do livro é apresentado como um homem que foi empurrado pelas circunstâncias do seu nascimento e educação, e quase sem se aperceber disso, para uma carreira no KGB, que mais tarde trairia em resposta a escrúpulos de consciência. É mostrado como um dissidente ideológico, primeiro seduzido pela literatura e pela música ocidentais proibidas no Leste e mais tarde chocado com a construção do Muro de Berlim e o esmagamento da Primavera de Praga.

Seria preciso ter uma ideia muito unilateral da história do século XX para aceitar sem reservas o quadro pintado pelo colaborador do “Times” e escritor de livros populares de espionagem. O espião e traidor é uma figura tão convencional que não revela praticamente sinais de divisão interior para além dos relacionados com a ambiguidade dos seus dois casamentos. A perícia narrativa é desproporcionalmente superior à espessura humana dos protagonistas da intriga. Entre outros exemplos, é natural que a vida profissional do Gordievsky sénior não fosse discutida à mesa em casa, mas, se considerarmos que já depois de colaborar com a agência inglesa Oleg ainda teve um acesso prolongado aos arquivos em Moscovo, a figura do pai que o livro transmite é desapontadoramente pobre. Sugere-se que teria sofrido remorsos pelos seus crimes, o que não surpreende dados os sítios onde foi colocado e a época em que viveu, mas por outro lado esteve demasiado perto do poder para não ter sentido também o medo que dominou o aparelho soviético da época estalinista, que no entanto parece ter-lhe passado ao lado.

Mas para lá da superficialidade é o enorme enviesamento político de Macintyre que domina o livro. Será que a reviravolta ideológica e de consciência de Gordievski o conduziu a uma postura tal que o tornou cego à violência política a ocidente? Por exemplo, para falarmos apenas dos confrontos mais célebres da Guerra Fria, a crise dos mísseis de Cuba é vista de forma parcial como uma ameaça russa a um equilíbrio atómico precário e os mísseis da NATO na Turquia, que desencadearam a tentativa de Moscovo de colocar as suas próprias ogivas em Cuba, não são sequer mencionados. O golpe de Pinochet aconteceu em 1973, estava Gordievsky indignado havia cinco anos com a entrada das tropas soviéticas em Praga, mas não parece ter ocorrido ao autor perguntar ao espião convertido se os crimes cometidos no Chile com apoio americano não afetaram a sua admiração pelo Ocidente. É claro que o espião pode ter sido simplesmente irrefletido, pateta ou inconsequente, ou ter-se posto a si mesmo entre a espada russa e a parede ocidental, mas confrontá-lo não teria impedido que se escrevesse um livro interessante sobre as peripécias da sua carreira. É pena que o autor não o tenha feito, porque este episódio da Guerra Fria tem todos os ingredientes de uma história empolgante, que a cegueira política não permitiu combinar num livro subtil à le Carré.

Depois de ter sido exposto como agente duplo, Gordievsky abandonou a vida ativa e nos tempos livres tornou-se formador de espiões no Ocidente. A consciência não o desaconselhou de ajudar Israel ou a África do Sul do apartheid. No fim do seu percurso, o resultado mais substancial do livro de Macintyre é despertar a curiosidade pela autobiografia do espião de origem soviética, que já havia sido publicada em 1995. A fonte é a mesma, por isso não são de esperar versões diferentes dos acontecimentos, mas fica o desejo de saber como Gordievski se explica na primeira pessoa.

Isabel Pedrome