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A Sombra de Salvador Dali
Cultura 3 10 min. 01.07.2022
Onik Sahakian

A Sombra de Salvador Dali

Dali e Onik nos vários momentos de uma longa amizade.
Onik Sahakian

A Sombra de Salvador Dali

Dali e Onik nos vários momentos de uma longa amizade.
Foto: DR
Cultura 3 10 min. 01.07.2022
Onik Sahakian

A Sombra de Salvador Dali

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Onik Sahakian foi um dos grandes amigos de Salvador Dali e o seu assistente durante vinte anos. Conheceram-se em Nova Iorque, em 1958. Nunca mais se separaram. Era o seu maior discípulo. Viveu grande parte da sua vida em Lisboa. Em Lisboa, morreu. Volvidos 10 anos da sua morte, ninguém sabe o que fazer da sua valiosíssima herança. Para além da sua própria obra, encontra-se, por exemplo, um Vermeer. E, como não podia deixar de ser, alguns originais de Dali.

Encontrei-me com Onik Sahakian por duas vezes, uma em 2010, outra em 2011, um ano antes da sua morte. Poucos museus tinham nas paredes uma colecção tão valiosa como a que se encontrava na sua casa, em Lisboa. 

Onik Sahakian faleceu no dia 17 de Dezembro de 2012, aos 76 anos. Era um homem do mundo, dado aos aspectos socialité da vida, mas estruturalmente solitário. Era um dos últimos dos surrealistas e orgulhava-se disso. Nunca negou a influência que Dali teve nele e na sua obra, nem tal era possível. Às vezes convivia bem com as inevitáveis comparações, outras, nem por isso. 

A sua paixão era a pintura. Tal como Salvador Dali a título póstumo, a sua obra tinha na Rússia (leia-se numa minoria privilegiada) um mercado insaciável, em que o dinheiro parecia um mero detalhe. Na juventude, Onik teve sonhos de ser bailarino. Quando conheceu Dali, todos os projectos foram adiados, alguns, como esse, sem retorno. Quando lhe apetecia, Onik dedicava-se igualmente à decoração e à joalharia. Nos últimos anos, porém, concentrou-se em exclusivo na pintura. Sentia urgência, como algo de premonitório. Pensava muitas vezes se o tempo faria justiça à sua arte e à sua identidade como artista. A isto só o tempo responderá.

Eis a sua história, contada ainda na primeira-pessoa, na memória de duas entrevistas.

Os bidoges de Vellázquez, em auto-retrato. Os de Salvador Dali, como clave de sol tombada em espiral surrealista. Um cabeleireiro de “griffe” em Nova Iorque, imigrante iraniano, que em Teerão tratava dos assuntos capilares da família real. O seu primo, de descendência russo-arménia, estudante das Belas Artes e de “ballet” clássico, radicado em Los Angeles. 

No Sebou Salon, o primo Onik Sahakian, em “papillon” e casaco de veludo, fez uma entrada em quarta-posição “grand-jeté”, descrevendo “pirouettes”, deslizando para um “grand finale” de joelhos, frente a um deus de perna cruzada, com rolos no cabelo, sem permitir que isso abalasse o seu método de pose. Estavam aqui reunidos por causa dos bigodes de Dali e pela sua obsessão, uma de várias, pelos bigodes de Vellázquez.

“Bravo! Bravo!”, atirou Dali, afrancesando. Aplaudiu de pé o bailarino, em nervoso estático perante o mestre, que alcançou a sua bengala, transformando-a em espada para o armar cavaleiro da sua ordem restricta. Que se levantasse o jovem desconhecido, para o primeiro abraço das suas vidas. Fora a actuação mais importante da vida de Onik. A amizade com Dali, contou, foi fulminante, com votos implícitos e explícitos de livre-acesso à sua esfera. Como sabemos, a sua lendária excentricidade não era para qualquer um.

Sir Onik Sahakian, recém-liberto da ordem iraniana, onde a família russo-arménia encontrou asilo depois da queda da dinastia Romanov, onde o nacionalismo transitara para a “Revolução Branca” de Reza Pahlevi, ainda que distante da revolução islâmica, encontrara em Los Angeles um admirável mundo novo. “Mas era uma cidade bastante impessoal. Estava tudo muito longe. Levei muito tempo a habituar-me a isso”, recordou Onik, com uma indisfarçavel nostalgia.

Nova Iorque tinha de tudo muito mais e mais perto. E, por longas temporadas ao ano, tinha então a presença pouco discreta de Dali, entre a 5th Avenue e a 55th Street, no St. Regis Hotel. “Não imagina a quantidade de gente que lá ia para o ver. Quando havia ´beautiful people`, ele convidava-os para os seus aposentos e abria garrafas de champanhe. Quando se cansava da entourage, dizia: ´Onik, its necessecerrry to make all these people desapearrrrr, pleeease`.

O intruso iraniano

A troco de marketing, a administração do St. Regis Hotel tinha todo o gosto em proporcionar “stay free” a Salvador Dali, acompanhando com champanhe e um sorriso qualquer extravagância do mestre ou da sua inseparável companheira, amante, esposa, musa de feições duras e andróginas, comandante suprema dos detalhes mundanos da vida de Dali.

O poeta Paul Éluard, o primeiro marido, assim como Dali, marido de longa metragem, não foram os únicos a encontrar inspiração em Gala. André Breton, colheu também a sua dose. Gala era a força e o contraponto de Dali. E, nessas funções, não era especialmente simpática, demonstrando sem cerimónia a sua mítica rudeza, quando era preciso e quando não era. Conhecia Dali de alma e corpo. Tanto era capaz de o fragilizar como de o proteger das suas fragilidades. Tanto era sua amante, como a mais feroz das críticas, o seu regaço metafísico ou a sua gestora de conta.

Onik Sahakian, fotografado na sua casa na Lapa, em Lisboa.
Onik Sahakian, fotografado na sua casa na Lapa, em Lisboa.
Foto: DR

De qualquer das formas, dizia Onik, Gala não apreciou a intrusão que ele foi. Porém, reforçou, a “dama de ferro”, como lhe chamavam carinhosamente, teve de aprender a aceitar o amigo iraniano, que se transformou lentamente em confidente artístico, a quem mais tarde Salvador Dali havia de conferir honra na mistura de tintas e pinceladas de paisagem em algumas das suas obras de porte robusto, nas colagens ou nas esculturas.

A sombra onde esteve Onik era difícil. Em muitos aspectos não permitiu que se notasse o seu brilho. “Em Nova Iorque estávamos juntos todos os dias. Era um privilégio, observar um mestre. Muitas vezes ensinava-me coisas em silêncio”. Noutras, Onik era uma espécie de assistente das pequenas coisas. “Tinha uma loja onde eu lhe comprava sempre um mel especial. Ele nunca usava açúcar”, recordou. E, se por aspectos da irreverência pública se desconfiasse que Dali podia usar outros adicionantes, Onik dispensava quase sempre a pergunta, fazendo-a: “Muita gente me questiona se ele usava drogas? Não. Realmente, parecia que estava sempre ´high`. Não era verdade. Era-lhe natural. Ele nasceu simplesmente louco”.

A tempestade de Salvador Dali, por entre a sua eterna loucura, tinha método. “Levantava-se sempre muito cedo. Era também uma pessoa de convicções religiosas muito profundas. Por estranho que isto possa parecer a muitas pessoas, tinha regras”. Era capaz do impensável e de ter isso devidamente calculado. “E também era capaz do contrário”. Onik soube isto desde sempre. Outras coisas, aprendeu. E, vagarosamente, descobriu o seu trajecto próprio.

Big Apple

Em 1969, Onik Sahakian tomou uma das decisões mais importantes da sua vida, só compatível com outra, mais tardia. Mudou-se para Nova Iorque, transpondo para “business” a sua pintura e as primeiras peças de joalharia. Nasceu então a Onik Designs Ltd. Em 1971, fez a sua primeira afirmação de autonomia, numa exposição de joalharia e pintura no Rockefeller Center. A feroz crítica da especialidade acolheu-o com doçura, revistas e jornais de Nova Iorque catapultaram-no. E o difícil público nova-iorquino aclamou-o efusivamente.

Onik recordou as palavras de Dali, certa vez. Muitos anos depois, quando já vivia em Lisboa, tinha delas absoluta certeza: “Onik, tu és a pessoa mais daliniana que eu conheci na minha vida. És totalmente louco, mas... com a loucura certa”. De uma certa loucura se alimentou aquela amizade. Nunca Salvador Dali terá sonhado que em “piroutte” conhecera uma sua extensão, uma espécie de alma-gémea, no que isso era possível, um braço interpretativo do seu surrealismo, nunca um sucessor. É claríssima a dimensão da sua influência na pintura de Onik Sahakian.

Ascension – obra de Onik Sahakian (1991).
Ascension – obra de Onik Sahakian (1991).

Em finais da década de 70, Onik deu uma festa gigante em Nova Iorque. E, entre desconhecidos, surgiu-lhe um exemplar português, como uma visão dos arquétipos da perfeição. Tal como Dali, Onik tinha as suas excentricidades, complexos não, muito menos com orientações sexuais. Mesmo em Portugal, embora mais discretamente, sempre assumiu a sua. “Parecia um modelo. Meu Deus, és mesmo português?”, inquiriu o anfitrião, ainda sob a influência dos protótipos das velhas de bigode e dos homens de pança. Se os portugueses eram assim, Portugal era de ver. 

Conheceu Lisboa em 1980 e algo de fulminante aconteceu: apaixonou-se. O velho mito da luz e dos recantos exerceram os seus mistérios encantados e tudo acabou num amor de perdição. E, por estranho, “a limpeza das ruas”. Estaria mesmo a falar das ruas da capital, dear Onik? “Bem... o meu ponto de referência era Teerão”, ironizou. Não era só isso. O sistema de ensino iraniano, no equivalente ao secundário, administrou-lhe conhecimento geral sobre países do mundo. Sobre Portugal, sabe-se lá com que sebentas, ensinaram-lhe que era um dos países mais limpos do planeta. O resto, ele aprendeu por sua conta, com todo o prazer. “A comida, o vinho, as pessoas. Tudo baratíssimo. Estabeleci imediatamente uma ponte aérea entre Nova Iorque e Lisboa. Passei a vir a Lisboa de seis em seis meses”, explicou.

Em 1986, comprou 400 metros quadrados de Portugal, um apartamento na rua Rodrigo da Fonseca, que fora de uma pianista, depois de um marechal, e que consigo faria a primeira página da revista Casa e Jardim. Depois da morte de Salvador Dali, em 1989, Lisboa passou a ser a morada habitual de Onik Sahakian. Até porque tinha percebido algo de muito importante, que transmitiu com solenidade: “Só consigo pintar em Lisboa”. Lentamente, Onik deixou a arte dos acessórios, para se concentrar apenas na pintura. O dinheiro, nessa fase da sua vida, já não era uma preocupação. Mesmo que fosse, a sua arte compensá-lo-ia, tendo a perfeita noção que era uma frase rara para a generalidade dos artistas. Dizia isto: “Vendo muito bem. Para todo o mundo”. Ainda por cima, acrescentou então, o mercado russo, que sempre foi “louco por Dali”, enlouquecera também com Onik Sahakian, o daliniano mais daliniado que Dali conheceu.

O cavaleiro da Lapa

O novo apartamento de Onik, na Lapa, paraíso do elitismo, ainda hoje uma das zonas mais luxuosas de Lisboa, era o refúgio de dois gatos civilizadíssimos, um preto, outro branco, que eram como lords felinos nos seus aposentos, mas treinados para não pôr as patinhas no Vermeer ou esgravatar um dos originais sumptuosos de Dali, com vista privilegiada para a sala de estar, de costas para a rua. 

Ao fundo, havia um piano de cauda, que tinha uma pele “tigresse”, defronte de um ícone ortodoxo, em nostalgia czar. Havia ordem, uma estranha ordem, a sua. Objectos habitavam o seu devido lugar, mesmo que à mercê dos gatos. Rosa, que era então a empregada do “menino” Onik, tinha na velhice um posto, mas já não tinha reflexos para a gataria, que derrapava no soalho à frente do pano do pó, evitando obstáculos que fariam as delícias de um qualquer “marchand” de arte.

Onik Sahakian nasceu em 1936. Dali tinha então 32 anos e, no exílio, saudades de Espanha. Nem tudo o discípulo bebeu do mestre. Em geral, Onik convivia pacificamente com as comparações e com as teorias conspirativas que lhe traçaram muitas vezes, com pouco conhecimento do que era a obra de Dali e da sua, com muita imaginação e poucos escrúpulos à mistura. 

Onik dizia que de Dali guardava os ensinamentos, as fotografias, os quadros que este lhe ofereceu, os desenhos, a amizade, as mais doces memórias (nem todas o eram), os pedaços e as coisas que não se viam, se não talvez nos seus quadros. Onik sempre refutou essa coisa de dizerem que é um mero continuador, pois a expressão rapidamente descambava para imitador e isso ele não podia tolerar. 

Este discípulo, tinha já no seu curriculum mais de 60 exposições individuais, do Museu da Cultura Mundial, em Gotemburgo, ao Grand Palais, em Paris, no Museu de Arte Contemporânea de Teerão ou de Moscovo, em Lisboa ou em Nova Iorque, em Cambridge ou na Arménia. Era um nobre Cavaleiro da Ordem de Malta, eterno cavaleiro da ordem de Dali, que um dia encontrou refúgio em Lisboa e só em Lisboa conseguia pintar. Onik Sahakian não tinha descendentes, nem família próxima ou remota. Deixou um espólio valiosíssimo. O seu testamento é a sua obra. Não se lhe conhece outro.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico)

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