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A portuguesa no Luxemburgo que transforma mulheres em santas

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  • Uma alma comunista
  • A arte de escrever à mão
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A portuguesa no Luxemburgo que transforma mulheres em santas

A portuguesa no Luxemburgo que transforma mulheres em santas
Menina Camarada

A portuguesa no Luxemburgo que transforma mulheres em santas


por Tiago RODRIGUES/ 07.09.2022

Foto: Luc Deflorenne

Ana Filipa Martins tinha o sonho de ser jornalista, mas por desilusão acabou por entrar na política. O feminismo e as minorias são a sua bandeira. Mas foi na arte que encontrou uma forma de se expressar. "A Casa" é a sua primeira exposição, que pode ser visitada no Kulturfabrik, em Esch. Uma homenagem às mulheres e às origens. Esta é a história da Menina Camarada.

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Elas é que mandam
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Entrar nesta casa é como entrar numa igreja. É um lugar de devoção. Nas paredes azuis e amarelas há quadros de moldura negra e faixas vermelhas com inscrições numa língua estranha. Como uma mistura do alfabeto hebraico com o árabe. Nesta caligrafia de símbolos pretos há mensagens escondidas. À espera de serem descodificadas. Na imagem da entrada está escrito “Ela é que manda”. Aqui a oração é a glória à Mulher. Elas aparecem em fotografias antigas e recortes de revistas, decoradas com auréolas e coroas. São como santas consagradas num altar que é só seu.

Este santuário é uma exposição artística que pode ser visitada no Kufa Summer Bar, no centro cultural Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette, até ao dia 21 de outubro. A criadora é a portuguesa Ana Filipa Martins, conhecida pelo nome artístico Menina Camarada. É a primeira vez que a jovem de 28 anos expõe o seu trabalho ao público. No último ano, esta autodidata feminista inventou a sua própria caligrafia, que sobrepõe em imagens encontradas em livros e revistas. A partir da sua experiência pessoal, conta histórias de mulheres que a inspiram e que quer homenagear.

Ana nasceu em Portugal, mas viveu praticamente toda a vida no Luxemburgo. Os pais emigraram quando ela tinha apenas oito meses e instalaram-se em Esch. A família é da aldeia do Lindoso, no concelho de Ponta da Barca, em pleno Parque do Gerês. Era para lá que voltavam todos os meses de agosto, durante as férias. E foi de lá que ela trouxe a inspiração para a sua arte. “Tudo começa pela família. A minha avó é viúva há muitos anos. Nunca mais quis casar e é muito independente. Eu via-a a fazer os trabalhos do campo e era impressionante. Foi a minha primeira influência”, conta.  

Além do exemplo feminino da avó e da mãe, também seguiu um bom modelo do pai, que, diz ela, “não é nada machista”. Só que a realidade que viveu fora de casa durante a infância foi bem diferente. “Sentia que havia uma resposta negativa por ser miúda e por ser portuguesa. Não posso dizer que fui vítima de xenofobia a um ponto traumatizante, mas sentia que havia uma diferença”, recorda. Então começou a ler muito cedo e a interessar-se por política e ativismo. “Por volta dos 13 anos, já lia manifestos feministas. Foi algo que sempre guardei, tanto que quis ser jornalista”.

Tudo começa pela família. Via a minha avó a fazer os trabalhos do campo e era impressionante. Foi a minha primeira influência.

Acabou por estudar jornalismo em Liège, na Bélgica. Esteve lá durante cinco anos, mas não terminou o curso. Aos 24, decidiu voltar para o Luxemburgo e até conseguiu trabalho num jornal. Mas a experiência não foi tão positiva. “Trabalhei numa redação em que a maioria das pessoas eram homens, o que à partida não seria um problema. Mas eram extremamente machistas. Eu cheguei depois dos estudos que não tinha acabado e estava muito insegura. Ninguém me explicou nada. A qualquer minuto alguém podia berrar comigo. Isso foi um bocado assustador”, confessa.

Apesar disso, a portuguesa encarou aquele trabalho como um desafio. “Sentia que os meus estudos tinham sido um falhanço e pensava que aquele era o meu castigo e que merecia”. No entanto, ao fim de dois anos teve um ‘burnout’ e decidiu parar. “Foi nessa altura que percebi que não podia ficar ali. Sabia que não era bom para mim e que não havia justificação para falarem assim comigo. Fez-me perceber que podes criticar quem quiseres no trabalho, mas não tens de ser mal-educado, nem fazer comentários sobre o que a outra pessoa veste. Cheguei a um ponto em que já nem sabia o que devia vestir. Não foi o jornalismo, mas o meio de trabalho que me enjoou”, lamenta.

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Uma alma comunista
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Durante os dois anos que trabalhou como jornalista, Ana conheceu um colega luxemburguês que a levou para a política. “Foi uma aparição na minha vida. Ele disse-me que eu era muito esquerdista e que o meu lugar não era ali, que aquele jornalismo não era para mim”. Foi então que surgiu a oportunidade de fazer parte de um partido político, aos 26 anos. “Vi que o lugar de coordenadora política do déi Lénk (‘A Esquerda’) estava livre e decidi tentar. Eles ficaram encantados com o meu perfil, por ter background de jornalista e ser portuguesa. Lá posso ser eu mesma”, assegura.

Ana mantém o cargo até hoje. “Essa é a minha profissão neste momento”. Porém, não tem a ambição de fazer política parlamentar ou entrar numa lista. “O que me interessa nisto não é a carreira, mas mobilizar o máximo de gente possível. Para o ano temos as eleições, mas o que eu quero é aprender como criamos um movimento coletivo”. O objetivo é apelar à participação dos eleitores. “A política é importante. Tudo é político. Se não participarmos e não usarmos os órgãos democráticos que temos à disposição… há muitos exemplos que mostram que quando as pessoas se unem por uma causa conseguem mudar alguma coisa”.

A portuguesa encara a arte como uma parte do seu ativismo e da sua personalidade, mas lamenta não ser possível viver só disso.
A portuguesa encara a arte como uma parte do seu ativismo e da sua personalidade, mas lamenta não ser possível viver só disso.
Foto: Luc Deflorenne

A portuguesa quer ser essa ponte para unir as comunidades. “Eu consigo falar com os portugueses, por exemplo, mas sendo uma mulher bissexual que cresceu aqui, também sei falar com a comunidade LGBT. Como estudei em Liège, consigo falar com pessoal que não é daqui. Não sou a voz delas, porque cada um tem uma voz, mas posso tentar falar com pessoas que às vezes estão muito fechadas”, explica. O grande desafio é fazer com que saiam à rua para lutar pelos seus direitos. “Infelizmente, o Luxemburgo não tem uma cultura de pessoal que faz greve e vai para a rua de maneira espontânea”.

É um trabalho longo, reconhece, mas que “vale a pena”. “Prefiro viver assim e dizer que ao menos lutei toda a minha vida, mesmo se não houver sempre vitórias. Mas fica o caminho para as que vêm a seguir, como outras fizeram para que eu hoje estivesse aqui. Eu tenho um conforto e um privilégio que a minha mãe não teve, por exemplo”. Além do feminismo, que é a sua grande bandeira política, Ana confidencia que tem uma “alma comunista”, embora reconheça que há “muitas coisas negativas” associadas à palavra. “Quando digo isso, refiro-me ao Manifesto Comunista de Karl Marx, porque fala de uma sociedade na qual eu gostaria de viver”.

A política é importante. Tudo é político. Há muitos exemplos que mostram que quando as pessoas se unem por uma causa conseguem mudar alguma coisa.

Quando fala desse seu lado marxista, contra a privatização dos meios de produção, dizem-lhe muitas vezes que é uma visão utópica. “Sei que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo”, compara, entre risos. Ela assume que tem uma posição anticapitalista, mas reconhece que é um “paradoxo”, porque também consome e compra coisas que não precisa ou não são de primária necessidade. Estar num partido político é “uma alta coincidência”, porque não era algo que sempre quis. “O déi Lénk era o único com o qual me identificava, mas nunca me passou pela cabeça lá trabalhar”.

Apesar de gostar do seu trabalho, Ana não se imagina a viver só da política. “Se visse a oportunidade de trabalhar numa associação com uma orientação mais LGBT, porque sei que nesse sentido ainda há muita coisa para fazer, sim, gostava de ficar neste meio ativista”. Quanto ao jornalismo, confessa que não gostaria de voltar a uma redação, mas não fecha a porta a possíveis trabalhos independentes. “Como muitas das minhas amigas são jornalistas, vejo isso mais no sentido de poder vir a fazer podcasts ou documentários. Num projeto limitado, onde possa por o meu saber em prática. Mas voltar ao mundo do jornalismo, não”.

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A arte de escrever à mão
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Foi da sua ligação ao comunismo que Ana escolheu o nome artístico Menina Camarada. “Uma vez pesquisei a palavra ‘camarada’, porque é tão usada. E escolhi pelo meu lado comunista e também pelo significado da camaradagem, de que estamos todos juntos. Mesmo se não formos amigos ou irmãos, somos camaradas. Vejo toda a gente como um camarada”, revela. “Menina porque é uma homenagem à criança em mim, que passou por muitas coisas. Sempre fui uma miúda complexada com o meu corpo, com a minha imagem… Então é menina pela criança e camarada pela adulta”.

A sua arte foi surgindo como um passatempo. Foi há cerca de dois anos que pegou pela primeira vez numa caneta para desenhar letras. “Depois comecei a fazer as colagens e a juntar a caligrafia abstrata”, recorda. Partilhou alguns dos seus trabalhos nas redes sociais e a resposta foi muito positiva. “Quando comecei a chamar a atenção e me começaram a dar plataformas para expor, pensei: ‘vai haver gente a ver as minhas coisas, é importante que eu tenha uma mensagem, que eu diga algo’. Decidi começar pelo início dos inícios, que são as minhas origens, as mulheres que me influenciaram”.

Para a sua primeira exposição, no Kulturfabrik, Ana escolheu representar sobretudo mulheres portuguesas da classe trabalhadora, das aldeias nos anos 70 e 80. “Lá toda a gente as conhece. Se calhar até nem estariam de acordo com o que eu estou a expor e até ficariam meio ofendidas, mas é com carinho que o faço. Para representá-las e mostrá-las enquanto ‘as donas disto’. Na altura, os homens estavam muito ausentes e eram elas que estavam em terra a manter tudo”, refere, lembrando que essas mulheres “ainda existem e ainda lá estão”.

O material que utilizou para fazer as colagens encontrou-o nos arquivos de uma antiga revista que se chamava Ilustração. “Ali encontrei muitas imagens que representam o folclore português. Apropriei-me um pouco dessas imagens e contei outra história”. Uma das maiores inspirações para a sua exposição surgiu de uma conversa com a madrinha no verão do ano passado, sobre a vida daquelas mulheres. “Elas trabalhavam e não ganhavam um tostão, nem tinham direito a nada, e ainda levavam porrada. E a minha madrinha disse-me: ‘Sabes, naquele cemitério está muita mulher que toda a vida só levou trabalho e porrada’. Aquilo marcou-me tanto, porque já ninguém fala delas”.

Escolhi Camarada pelo meu lado comunista e também pelo significado da camaradagem. E Menina porque é uma homenagem à criança em mim.

Foi por isso que decidiu homenageá-las com a sua criação artística. “Foram elas que de certa forma me influenciaram a ser a mulher que sou: trabalhadora, a lutar sempre para a frente, sem nos queixarmos, com esta força de ser”, disse, orgulhosa. No entanto, esta mensagem nem sempre é percetível. “Falei com a minha avó sobre isto e ela não entendeu muito bem. É muito complexo para elas. Quando estou a fazer a caligrafia, dizem-me: ‘Ai, que risquinhos tão bonitos que estás a fazer’. Mas é genuíno. É giro ouvir isso. Eu digo que sou artista e que falo deles, a representar os portugueses, e ficam contentes”.

A sua caligrafia abstrata é a imagem de marca, mas porquê a inspiração hebraica e árabe? “Porque esteticamente é algo que adoro. Desde sempre que a cultura árabe me chama, mas eu nem lá pus os pés ainda. É uma escolha puramente estética. Acho muito bonito e inspiro-me naquilo”, revela. Com o tempo, Ana tem desenvolvido o seu próprio alfabeto, com símbolos ou códigos que guardam “mensagens secretas”. “Acho que o pessoal que passa tempo com aquilo vai começar a perceber que está lá escrito alguma coisa e depois começa a reconhecer as letras. Quero que as pessoas descubram”.

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A glorificação da mulher
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Para o nome da exposição, que está aberta ao público desde julho, ela escolheu “A Casa”, porque aquele é um lugar que lhe é familiar. “Apesar de ter nascido em Portugal, cresci em Esch e há cerca de sete ou oito meses venho muitas vezes ao Kulturfabrik. Também trabalham aqui portugueses e eles percebem, até conseguem fazer piadas sobre a minha aldeia. O meu escritório é na capital e é um mundo à parte. Esch é diferente”, garante. A oportunidade surgiu através de uma iniciativa do centro cultural para apoiar os artistas locais, permitindo-lhes expor o seu trabalho nas paredes do bar.

A principal mensagem que a artista gostava de passar é que aquelas mulheres sejam vistas quase como santas. “Quero que as pessoas passem algum tempo a olhar para elas. Quero glorificá-las. Mesmo que algumas já não estejam cá. Foi por isso que fiz uma decoração como numa igreja, para as pessoas terem um certo respeito. Queria que levassem isso, independentemente de gostarem ou não”, afirma, lembrando que a experiência é “muito importante” para as pessoas perceberem a arte. “Se crias uma emoção, elas ficam mais atentas ao que estão a receber”.

Ao mesmo tempo que glorifica as mulheres ao adorná-las como divindades, a artista decidiu riscar a cara dos homens que aparecem nas imagens. “Há um exagero dos dois lados. Para criar um certo equilíbrio, eu exagero numa maneira positiva ao por as mulheres num altar e exagero ao riscar os homens. É uma crítica ao Portugal machista que ainda temos”, justifica. Embora sempre tenha vivido no Grão-Ducado, Ana sentiu isso na sua adolescência. “Não cresci em Portugal, mas cresci aqui na comunidade portuguesa e havia quase um comportamento importado. Não é um sítio seguro”.

As mulheres nas imagens são portuguesas dos anos 70 e 80. Já os homens aparecem com a cara riscada.
As mulheres nas imagens são portuguesas dos anos 70 e 80. Já os homens aparecem com a cara riscada.
Foto: Guy Jallay

Em casa, ela e o irmão mais novo foram educados para compreenderem essa realidade. “A minha mãe sempre trabalhou nas limpezas e o meu pai no setor da construção. Ele contava-me certas coisas e dizia: ‘Filha, o que eu ouço às vezes, os comentários que fazem, tu passavas-te, saías de lá doente’. Isso não são brincadeiras, porque se dizem isso ali, se calhar vão reproduzir esse comportamento em casa e têm filhos ou filhas que vão ouvir isso também”, critica. “A minha sorte é que o meu pai nunca falou assim para mim. E quando algum homem falava assim eu sabia que algo não batia certo”.

Há um exagero dos dois lados. Exagero numa maneira positiva ao por as mulheres num altar e exagero ao riscar os homens. É uma crítica ao Portugal machista que ainda temos.

Por isso, explica, expulsar os homens da sua obra é dizer: “Agora calai-vos que o momento é delas”. A artista reconhece que é um “exagero”, mas o facto de eliminar os homens nos seus trabalhos é como “deitar abaixo o predador ou o inimigo”. Uma posição que pode ser vista como “anti-homem” ou “feminista radical”, mas que Ana não vê como um problema. “Já tive confrontos com homens que ficaram um pouco ofendidos, mas se a carapuça serve… Disseram-me que uma sociedade não se faz só de mulheres e que hoje em dia uma posição assim não é uma honra aos feministas, porque o feminismo devia ser mais inclusivo. Não é construtivo. No fim, a arte fala por si. Não é nada pessoal”.

Esta eliminação do homem é também uma forma de alertar para a violência e os crimes contra as mulheres. “Há lugares onde é melhor, mas infelizmente ainda não há sítio nenhum no mundo onde uma mulher esteja 100% em segurança. No Luxemburgo não me posso queixar de me sentir fisicamente em perigo. Mas já tive problemas no trabalho. Seja assédio sexual ou comentários que não deviam ser feitos”, conta, com esperança num futuro melhor. “Ainda não existe um matriarcado. Não sei se vou viver para ver isso, mas pelo menos tento falar através da minha arte. Criar um debate à volta do tema, porque a minha fibra é muito mais política do que artística”.

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O início da revolução
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A arte sempre esteve muito presente na vida de Ana. Na faculdade, teve aulas de história da arte que lhe deram “muita bagagem”. “Também sempre andei muito em galerias e exposições e o meu círculo de amigos é de artistas”. Foram eles que a convenceram a começar a fazer os trabalhos e mostrá-los. Mas mais do que artista, ela quer ser vista como ativista. “É este o meio que eu uso para atrair atenção. As pessoas passam tempo com aquilo e mesmo que tenham uma reação negativa, é uma reação, faz refletir. Ou se calhar é só uma vontade minha de criar caos por onde passo”, afirma, com uma gargalhada.

A portuguesa encara a arte como uma parte do seu ativismo e da sua personalidade, mas lamenta não ser possível viver disso. “Sou muito expressiva e a minha arte é uma extensão de mim. Se desse realmente para fazer isto profissionalmente até aceitava, mas ser artista nesta sociedade é muito difícil. Tenho muitos amigos artistas que passam mesmo mal”, conta. Além disso, teme que teria que aceitar trabalhos que na sua perspetiva não seriam éticos. “Não gostaria de trabalhar para uma empresa que eu soubesse que não trata bem os trabalhadores, por exemplo”.

Foto: Luc Deflorenne

Trocar a política pela arte não é uma opção, porque Ana gosta do que faz e sente-se respeitada no meio. “É a primeira vez que não tenho que explicar ao meu colega de trabalho que isto ou aquilo não se diz. Enquanto mulher sinto-me altamente respeitada. Então porquê abandonar isto?”, questiona. Admite, no entanto, que conciliar as duas coisas lhe tira muitas horas de sono. “Tenho o meu trabalho no escritório e às vezes também trabalho aos fins de semana. E depois tenho a minha arte. Sou muito hiperativa e estou sempre a experimentar coisas novas. Não preciso de dormir muito”.

Gostava de fazer parte de algo revolucionário. Algo que vão ter de escrever nos livros. Conseguir juntar as pessoas e deixar algo para as próximas gerações.

O processo criativo acontece de manhã ou à noite, quando não está a trabalhar. “Posso acordar às 7 horas e estar super motivada. Então faço o meu café, queimo o incenso ou as minhas velas, porque preciso do meu ambiente”. A partir daí, Ana decide se vai trabalhar a sua caligrafia em roupa ou num quadro. “Ponho-me a meditar naquilo e pego nas coisas uma a uma. Depois entro como num surto e fico horas a fio a fazer aquilo. Depois tenho de parar, senão fico enjoada. Mas produzo muito de uma vez”, reconhece, admitindo que não sabe o que fazer com alguns dos trabalhos. “Uns acho que estão bonitos, outros nem tanto. É um desperdício”.

Daqui para a frente, a portuguesa quer continuar a participar em projetos e já tem uma série de trabalhos em mente. Nos dias 17 e 18 de setembro, vai ter uma exposição no mercado de arte Augenschmaus, em Mondercange. Depois, quer começar a fazer um trabalho sobre a sua adolescência. “Com ‘A Casa’, falei das minhas origens. Agora quero falar desse período, da minha experiência a nível de saúde mental e o facto de ter sido uma miúda muito rebelde. Quero que seja uma continuação. Estou a falar da minha história, mas ao mesmo tempo falo da história de tantas outras mulheres”.

A artista quer abordar temas como o da violência entre namorados, que é pouco falado. “É uma maneira de falar de coisas que me aconteceram, mas sem dizer que me aconteceu. Através de uma perspetiva pessoal, quero ir para o coletivo. Mais tarde, vou falar da minha vida adulta, quando tiver mais idade”. Quanto ao estilo, quer manter a caligrafia e as colagens, mas tentando novas coisas. “Quero que isso seja uma das formas em que eu posso expor. Mas também quero trabalhar com outras pessoas e trazer o meu conhecimento e a minha personalidade”.

O foco da sua arte, como naquele santuário de idolatria à mulher, está na mudança de comportamentos. “O que eu gostava mesmo de concretizar era fazer parte de algo revolucionário. Não só eu, mas sobretudo outras mulheres e pessoas das minorias. Fazer algo que vão ter de escrever nos livros. Conseguir juntar as pessoas e deixar algo para as próximas gerações”, confidencia. “Gostava que se lembrassem de mim como alguém que fez isto. Uma imagem inspiradora, que faça mexer, mostrar, lutar pelos direitos. Ser uma boa influência e fazer parte de uma mudança”. A mensagem já lá está escrita. Que comece a revolução, camarada.

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