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A partir de hoje e até 16 de outubro: Mega-exposição no Luxemburgo mostra tesouros da arte portuguesa
Uma reprodução dos famosos painéis de São Vicente, do pintor Nuno Gonçalves (1470-1480), acolhe os visitantes numa das salas.

A partir de hoje e até 16 de outubro: Mega-exposição no Luxemburgo mostra tesouros da arte portuguesa

Foto: JLC
Uma reprodução dos famosos painéis de São Vicente, do pintor Nuno Gonçalves (1470-1480), acolhe os visitantes numa das salas.
Cultura 20 8 min. 27.04.2017

A partir de hoje e até 16 de outubro: Mega-exposição no Luxemburgo mostra tesouros da arte portuguesa

Uma exposição com mais de 130 peças de arte, que vão da Idade Média ao séc. XVIII português, na sua maioria provenientes do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, é inaugurada esta quinta-feira, 27 de abril, às 18h30, no Museu Nacional de História e de Arte do Luxemburgo, para mostrar como os Descobrimentos Portugueses ligaram o mundo, influenciando a história da arte, da ciência e das ideias.

Uma exposição com mais de 130 peças de arte, que vão da Idade Média ao séc. XVIII português, na sua maioria provenientes do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, é inaugurada esta quinta-feira, 27 de abril, às 18h30, no Museu Nacional de História e de Arte do Luxemburgo, para mostrar como os Descobrimentos Portugueses ligaram o mundo, influenciando a história da arte, da ciência e das ideias.

Intitulada “Portugal Drawing the World” (“Portugal Desenhando o Mundo”), esta é uma das maiores exposições, senão a maior, até hoje organizadas no Grão-Ducado sobre a história e a arte portuguesas.

A mostra vai estar patente ao público entre 28 abril e 15 de outubro no Museu Nacional de História e de Arte (MNHA), no Marché-aux-Poissons, na cidade do Luxemburgo, e resulta de uma parceria estabelecida entre o MNHA e o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) de Lisboa.

O Contacto teve o privilégio de assistir à montagem de parte da exposição, que começou há duas semanas. No terceiro e quarto andares do Museu Nacional de História e de Arte do Luxemburgo, numa superfície de cerca de 200 metros quadrados, a exposição ganha forma. Há caixas em madeira de pequenas e grandes dimensões um pouco por todo o lado, com o autocolante “frágil”, como se fosse preciso lembrar às equipas dos dois museus, que montaram juntas a mostra, que as peças transportadas de Lisboa são “tesouros”. E algumas são mesmo, pertencem ao “tesouro nacional” e só vão chegar dias antes da inauguração.

“São objetos que saem de Portugal apenas em ocasiões muito especiais”, confiam Conceição Borges de Sousa (do MNAA) e Fabienne Pietruck (do MNHA), respetivamente comissária científica e curadora da exposição. E só assim se percebe porque cada objeto é colocado na sua vitrine com luvas, cuidadosamente.

Entre as peças expostas contam-se obras como raros marfins de produção africana do início do séc. XVI, jóias em ouro e prata, incluindo ourivesaria gótica, ostensórios, véus umerais (mantos de bispo), marfins e mobiliário de origem indo-portuguesa, telas com vistas de Goa e de Malaca, uma reprodução dos painéis de São Vicente do pintor Nuno Gonçalves, retratos dos reis D. Afonso Henriques e D. Manuel I, do navegador Vasco da Gama e do vice-rei da Índia Francisco de Almeida, têxteis e porcelanas chinesas, peças japonesas nambam, uma espingarda de cano lacado, um canhão do séc. XVI, gemas do Brasil, uma Pedra de Goa (bezoar), alabastros ingleses do séc. XV, entre muitos outros tesouros da arte portuguesa. Animais e plantas até então desconhecidos, produtos de luxo, sedas e porcelanas, materiais raros e preciosos passaram a circular à escala mundial, “promovendo uma intensa assimilação de formas e de motivos decorativos das mais diversas origens”, diz-nos a comissária. É esta mudança a nível global provocada pelos Descobrimentos, com impacto no comércio, na diplomacia, nas artes, e até na vida quotidiana, que a exposição pretende recordar.

Mostrar Portugal

“Há três anos fui a Lisboa porque o então embaixador do Luxemburgo em Portugal, Paul Schmit, queria fazer na capital portuguesa uma exposição sobre o fotógrafo luxemburguês Edward Steichen. Fui a vários museus para ver que possibilidades havia de fazer essa mostra e acabei por visitar o Museu Nacional de Arte Antiga. Foi em conversa com o seu diretor, o António Pimentel, que surgiu a ideia de fazer esta exposição”, confia ao Contacto Michel Polfer, diretor do MNHA.

“A última grande exposição sobre arte portuguesa no nosso museu aconteceu em 1988, com peças da ourivesaria portuguesa, por altura da visita do então Presidente da República Mário Soares. Eu disse ao António Pimentel que gostaria de voltar a ter uma exposição que mostrasse Portugal, porque existe uma grande comunidade portuguesa no Luxemburgo, mas eu continuo a ter a impressão que muitos luxemburgueses não conhecem bem Portugal nem a arte portuguesa. Daí a ideia...”, revela Polfer.

“A ideia era organizar uma exposição que divulgasse Portugal e os seus testemunhos artísticos, que contasse, explicasse e esclarecesse um pouco da história de Portugal ao público do Luxemburgo e desse a conhecer a riquíssima cultura e património portugueses”, completa Conceição Borges.

Como foi feita a escolha das peças em exposição? “Os objetos foram cirurgicamente escolhidos, peças lindíssimas e emblemáticas da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa. Foram escolhidas para ilustrar e explicar como se formou Portugal, lançando depois ao visitante a proposta da viagem, com as Descobertas, a partir do séc. XV, através de África, Índia, Malaca, China, Japão e até ao Brasil. São peças, alguns são verdadeiros tesouros nacionais, que vão desde a Idade Média até ao séc. XVIII, como alguns dos objetos ligados à história do Brasil”, explica a comissária.

Para Miguel Soromenho, comissário-adjunto da exposição e que também pertence à equipa do MNAA que veio de Lisboa, a ideia é mostrar quatro séculos de arte portuguesa na “perspetiva cosmopolita” que esta tem, graças às suas “características peculiares, que foi ganhando ao entrar em contacto com outras culturas”, à medida que os portugueses iam criando o que alguns historiadores não hesitam em chamar a “primeira aldeia global”.

A primeira aldeia global

“Esta exposição fala sobre a forma como os portugueses foram viajantes, estiveram em todas as partes do mundo, fizeram aquilo a que nós chamamos hoje a globalização, a globalização da cultura entre a Europa e o Oriente, e através do Atlântico com o Brasil e a América do Sul. Levaram e trouxeram arte, plantas, novas ideias e teorias científicas, literatura, música, todas as formas de cultura com que iam estando em contacto”, acrescenta Conceição Borges. “Os portugueses contribuíram também para fazer acelerar a comunicação entre as diferentes partes do mundo. Pensávamos que a comunicação demorava muito tempo naquela época mas não é verdade, as notícias e as novidades entre os navegadores, os comerciantes e o rei circulavam de forma muito rápida, e isso contribuiu para essa globalização”, recorda a comissária.

Mais de 130 peças de mais de 20 museus

“Esta exposição seria naturalmente impossível se não tivéssemos um parceiro nacional em Portugal, como o Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa. Estão reunidos aqui objetos de mais de 20 museus portugueses e até de colecionadores privados. Seria para nós logisticamente impossível estabelecer contacto individualmente com cada um desses museus para montar esta mostra. Quem se incumbiu de fazer isso foi o Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa, que são nossos parceiros na organização desta exposição”, congratula-se, por seu lado, Fabienne Pietruk, que nos conta um pouco sobre os preparativos para esta mega-exposição.

“A ideia surgiu há três anos, mas depois disso foi preciso ver o que era necessário fazer para concretizar a ideia. Uma exposição desta dimensão começa a ser preparada com muitos meses de antecedência”, começa por explicar a curadora. “Temos que fazer uma seleção dos objetos a expor, ver se as peças escolhidas podem viajar, porque há objetos que simplesmente não saem de Portugal ou apenas por períodos muito curtos, ou se estão disponíveis nas datas do nosso evento e não estão já em exposição noutro local”.

E o processo é moroso, continua a explicar em pormenor e de forma apaixonada Fabienne. “Temos depois que estabelecer contratos e seguros para cada objeto, inclusive mandar construir caixas em madeira especiais para que algumas dessas peças possam ser transportadas. Neste caso, a maior parte dos objetos chegaram de camião duas semanas antes da inauguração, os outros só chegam alguns dias antes porque fazem parte do ’tesouro nacional’ e só saem de Portugal excecionalmente”.

“As primeiras peças chegaram em 50 caixas, tiveram que ser minuciosamente desempacotadas, uma a uma, pelos nossos restauradores, sempre na presença de pelo menos um responsável dos dois museus, têm que ser manuseadas com luvas, colocadas no local indicado. Temos também que preparar as luzes de forma a que valorizem o objeto e não o contrário. A exposição foi montada primeiro virtualmente com as fotos dos objetos e quando a peça chega pode ter características que não estávamos à espera, por exemplo, o suporte não é adaptado ao objeto, nesse caso temos que recorrer às nossas oficinas e refazer o suporte... Tudo isso tem que ser feito com calma e sem correrias, é um trabalho minucioso, árduo e que leva tempo. Mas a montagem correu muito bem“, felicita-se a curadora, que espera muitos visitantes interessados.

O público pode descobrir estes tesouros da arte portuguesa a partir de sexta-feria e durante seis meses. A vernissage tem lugar esta quinta-feira às 18h30, na presença da grã-duquesa Maria Teresa, da duquesa Isabel de Bragança, do embaixador de Portugal no Luxemburgo, do embaixador do Luxemburgo em Portugal, bem como dos diretores dos dois museus, António Pimentel e Michel Polfer.

José Luís Correia

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