Escolha as suas informações

"A mãe perfeita não existe"
Cultura 4 min. 23.01.2023
Exposição

"A mãe perfeita não existe"

A realidade é bem diferente do que vemos nas redes sociais, considera Nora Koenig, co-autora da exposição "we can have it all", na Abadia de Neumünster.
Exposição

"A mãe perfeita não existe"

A realidade é bem diferente do que vemos nas redes sociais, considera Nora Koenig, co-autora da exposição "we can have it all", na Abadia de Neumünster.
Foto: Guy Jallay
Cultura 4 min. 23.01.2023
Exposição

"A mãe perfeita não existe"

Anne-Sophie DE NANTEUIL
Anne-Sophie DE NANTEUIL
Numa exposição na Abadia de Neumünster, até 26 de fevereiro, Nora Koenig e Anne Simon examinam o mito de que as mulheres podem "ter tudo".

Entre carreira e família, Nora Koenig e Anne Simon estavam convencidas de que estas não eram incompatíveis. Mas é um facto de que a realidade não é tão simples como as redes sociais fazem querer.

Através de uma instalação lúdica - "we can have it all"- na Abadia de Neumünster, as duas artistas luxemburguesas questionam estas representações digitais - muitas vezes demasiado suaves - da maternidade. 

Os visitantes podem descobrir uma série de autorretratos distorcidos que vão das ilusões à desilusão. 

Uma reflexão que Nora Koenig faz sem qualquer filtro:

Nesta exposição, destacam o "ter-se tudo" no que respeita ao feminino. Como mulher, o que é este "tudo" e a que aspira? 

Enquanto trabalhávamos neste projeto, a Anne e eu perguntámo-nos principalmente porquê: porque é que precisamos de ter tudo? Porque é que queremos ter tudo? Penso que hoje, já não queremos ser apenas uma mãe ou uma mulher trabalhadora. Queremos ser ambas, mas não podemos estar a 100% em cada um destes papéis. 

Como explicam isto? 

Uma das razões é a falta de tempo. Somos levados a acreditar que é possível estar em todas as frentes, quando é óbvio que não é. Para encontrar um equilíbrio, é preciso fazer escolhas. 

O tempo continua a ser o principal obstáculo das mulheres.
O tempo continua a ser o principal obstáculo das mulheres.
Foto: Guy Jallay

Nas redes sociais, algumas mulheres parecem ser capazes de o fazer.

No Instagram, vemos muitas mães perfeitas, mas a realidade é por vezes bastante diferente. Por exemplo, uma influencer mostra um bolo perfeito. O que ela não diz é que esta é de facto a sua sétima tentativa. Antes disso, ela fez seis bolos em que falhou completamente. O que vemos não reflete a realidade. 

Então é tudo uma encenação enganosa? 

Nas redes sociais, há quase sempre filtros. No final, mostramo-nos a nós próprios, mas também tentamos esconder-nos. Porque a vida não é como no teatro ou na internet. O quotidiano não é excitante, é aborrecido. Mas não é isso que queremos mostrar. Não é isso que queremos ver - e acreditar. 

A mãe perfeita afinal não existe? 

Não! Não acredito nisso. Não existe tal coisa como a mãe perfeita. Apesar das aparências que querem passar, as mulheres não o conseguem fazer. Já não aguentam mais, estão exaustas, mesmo que as redes sociais queiram fazê-las acreditar no oposto. 

Finalmente, quem estamos nós a tentar convencer? 

Essa é a questão. A elas próprias? Os outros? Na Instagram, algumas mulheres publicam fotografias de si próprias grávidas. Mostram a sua gravidez como nove meses de uma vida de sonho, enquanto qualquer mãe que lá tenha estado sabe que nem tudo é cor-de-rosa! 

Quais são os riscos destas representações tendenciosas? 

O risco é de que nos percamos a nós próprias. Criam-se personagens que não são realmente elas próprias. Estamos um pouco a teatralizar e isso é problemático. 

As gerações mais jovens estão a crescer nesta sociedade de aparências e filtros. Temos de nos perguntar a nós próprios onde isto nos levará. Já para não mencionar o facto de todas estas imagens também poderem gerar muito stress... 

Exposição poderá ser vista até 26 de fevereiro na Abadia de Neumünster
Exposição poderá ser vista até 26 de fevereiro na Abadia de Neumünster
Foto: Guy Jallay

Acha que o Instagram é um fardo mental adicional para as mulheres?  

Sim, absolutamente. Uma mulher não pode cozinhar durante três horas, passar o seu tempo nas redes sociais, trabalhar e desfrutar do tempo com os filhos. Mas, ao mesmo tempo, quando vejo isto, quero acreditar que isto é possível e que posso ter controlo sobre isto.

Cada vez mais mulheres instagrammers querem afastar-se destas representações demasiado suaves da vida quotidiana e mostrar o outro lado. O que pensa sobre isto?

Mais uma vez, é tudo uma questão de encenação. É o resultado de escolhas. A fotografia, por muito banal que seja, é de facto tirada de tal e tal forma. É o que queremos mostrar.

Então, aos seus olhos, nas redes sociais somos mais marionetas ou marionetistas?

Fazemo-nos nós próprias de marionetas. Temos toda a liberdade para dizer não, mas não temos. E porquê? Não temos realmente a resposta...     

Ambas provêm do teatro. Poderia estar prevista uma continuação desta reflexão em palco? 

Poderia ser!

(Artigo publicado originalmente no Virgule. Traduzido e editado para o Contacto por Catarina Osório.)

O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.