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A infanta portuguesa que conquistou o Grão-Duque e governou o Luxemburgo
Cultura 8 min. 05.07.2018

A infanta portuguesa que conquistou o Grão-Duque e governou o Luxemburgo

A infanta portuguesa que conquistou o Grão-Duque e governou o Luxemburgo

Fototeca da Casa Grã-Ducal / C. Bernhoeft (Luxemburgo, 1893)
Cultura 8 min. 05.07.2018

A infanta portuguesa que conquistou o Grão-Duque e governou o Luxemburgo

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Chamava-se Maria Ana de Bragança e foi regente do Luxemburgo entre 1908 e 1912. O casamento da filha de D. Miguel de Portugal com o futuro Grão-Duque Guillaume IV levou a coroa a mudar de religião e abriu caminho a uma linhagem de mulheres. O Museu Nacional de História e Arte do Luxemburgo recorda o casamento que uniu Portugal e o Grão-Ducado muito antes da chegada dos primeiros imigrantes portugueses, numa exposição com o apoio da Embaixada e da Casa Grã-Ducal.

A data do casamento que os livros de História registam é 22 de junho de 1893, mas os amores contrariados da infanta de Portugal e do herdeiro do trono luxemburguês já duravam há mais de uma década. “Já em 1884, quase dez anos antes do casamento, Guillaume tinha pedido ao pai para casar com Maria Ana de Bragança, mas o pai era contra, porque era luterano e Maria Ana era católica”, conta Régis Moes, um dos curadores da exposição organizada pelo Museu Nacional de História e Arte do Luxemburgo (MNHA) para assinalar o 125o aniversário do casamento. A exposição, que vai ser inaugurada a 9 de julho, mostra “a relação amorosa entre os dois protagonistas e as consequências políticas no Luxemburgo da união”, explica o também conservador do museu.

O casamento “foi um evento importante na História do Luxemburgo, por várias razões”, frisa Régis Moes. Para já, voltemos ao momento em que Maria Ana de Bragança e Guillaume de Nassau se conhecem, em 1880, numa festa de família. “Pelo lado da mãe, a princesa Maria Ana pertencia à nobreza da Baviera”, explica o curador. Nessa altura, a família vivia no exílio, na Alemanha. O pai de Maria Ana de Bragança, D. Miguel – que reinou de 1828 a 1834 e ficou conhecido pelo cognome de “Usurpador” – tinha sido deposto e forçado a deixar o país, com a assinatura da Convenção de Évora-Monte que pôs fim a seis anos de guerra civil entre absolutistas e liberais.

Seria com Maria Ana de Bragança, quinta filha de D. Miguel com a princesa Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg, que Guillaume do Luxemburgo decidiria casar. Mas os dois teriam de esperar mais de uma década para vencer a oposição do pai de Guillaume. “Ele nunca desistiu e continuou a insistir. Havia relatos na imprensa de relações com outras possíveis candidatas, mas nunca eram verdade, e finalmente o Grão-Duque Adolphe acedeu”, conta. A razão era política. Em 1890, Adolphe de Nassau, pai de Guillaume, tornara-se Grão-Duque do Luxemburgo, pondo fim a uma crise dinástica que afastou os Países Baixos da sucessão, por causa da lei sálica, que proibia que as mulheres acedessem ao trono. “Como o Grão-Ducado era um país católico, havia interesse em que a dinastia reinante se aproximasse da religião do país”, explica Régis Moes.

O casamento do futuro Guillaume IV com Maria Ana de Bragança “permite a entrada de uma princesa católica na dinastia” e é saudado na imprensa da época. “Por exemplo, o Luxemburger Wort, um jornal católico, menciona o facto de uma das primeiras coisas que Maria Ana de Bragança fez, após a entrada solene no Luxemburgo, foi assistir a uma missa em Walferdange, onde ficava a residência do Grão-Duque Adolphe”. Por causa do casamento, as seis filhas do casal viriam a ser educadas “na fé católica”. “Houve um alinhamento da religião dominante no país e da religião da dinastia”, sublinha o curador.

A nova Grã-Duquesa herdeira foi apresentada à população em julho de 1893 “com fanfarras e grupos corais” por todo o país, um mês depois do casamento na Áustria. “As pessoas acolhiam-nos durante o percurso com fervor popular”, conta Régis Moes. É que o casamento “foi visto como mais um marco para garantir a soberania do país, após a mudança na dinastia”, explica o curador. A união com a filha de D. Miguel assegurava a continuidade.

Foto: Éric Chenal / MNHA

O acesso das mulheres ao trono

Guillaume IV tornou-se Grão-Duque do Luxemburgo em 1905, após a morte do pai, mas o reinado não duraria muito. Adoeceu pouco tempo depois. Maria Ana de Bragança foi nomeada regente entre 1908 e 1912, até a filha mais velha atingir a maioridade. Foi graças a este casamento que as mulheres puderam aceder ao trono no Grão-Ducado. “Como Maria Ana de Bragança e Guillaume IV só tiveram filhas, foi necessária uma solução. Em 1907, o pacto da família de Nassau foi alterado para permitir às filhas o acesso ao trono do Grão-Ducado”, conta o curador, levando a “uma certa feminização da dinastia”. Em 1908, Maria Ana de Bragança passa a assinar leis e assume um papel político até à morte de Guillaume IV, em 1912. Nessa altura, é a filha mais velha, Marie Adelaide, que se torna Grã-Duquesa. Após uma crise política em 1918-1919, acede ao trono a segunda filha, a grã-duquesa Charlotte. “É uma corte unicamente feminina, que contrasta enormemente com o mundo político da época, exclusivamente masculino”, aponta o curador, sublinhando que no Luxemburgo “as mulheres só acedem ao direito de voto em 1919”.

Mas voltemos ao casamento. O casal escolheu como residência o castelo de Colmar-Berg, onde ainda hoje vivem os Grão-Duques. Na época em que Maria Ana casou, estava em ruínas, e “foi Maria Ana quem organizou as obras”, quando Guillaume IV ficou doente. “Foi ela quem fez instalar o aquecimento e organizou as obras e a nova decoração, recorrendo a um arquiteto alemão, que projetou uma residência no estilo dos castelos alemães”.

Para o curador, Maria Ana de Bragança “era uma mulher que tinha uma certa personalidade e força de caráter”, a avaliar pelo “peso das responsabilidades que teve de assumir, sobretudo a partir de 1908”. “Ela era simultaneamente soberana, educava as filhas e tomava conta do marido, que estava doente”, frisa. Nos discursos preservados nos Arquivos Nacionais, “mostra um grande sentido de responsabilidade pelo país”. “É uma época em que o mundo político está muito polarizado – os discursos na Câmara dos Deputados são de uma grande violência verbal –, e o papel da monarquia é um pouco o de zelar pela unidade. A correspondência entre a corte e o primeiro-ministro da época, Paul Eischen, mostra a vontade de trabalharem juntos para garantir uma imagem unida no exterior”.

Maria Ana de Bragança nasceu no exílio, na Alemanha, e só voltaria a Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, quando a família grã-ducal fugiu do Luxemburgo, após a ocupação alemã. Tal como a filha, a Grã-Duquesa Charlotte, e os restantes membros da família, recebeu vistos do cônsul Aristides de Sousa Mendes para conseguir chegar a Portugal. Dali partiram para os Estados Unidos. Maria Ana de Bragança morreu em 1942, em Nova Iorque, com 81 anos. Está sepultada na Catedral do Luxemburgo.

De acordo com o curador, a mostra é uma oportunidade para valorizar a ligação entre os dois países. “Não é uma coisa que vá transformar, como num passe de mágica, a perceção dos luxemburgueses sobre a sua História”, diz ao Contacto. “A História do Luxemburgo é pouco conhecida do grande público, em particular as relações entre Portugal e o Grão-Ducado e a forte presença da comunidade portuguesa, que fazem parte da História mais recente. É também uma forma de mostrar que estas relações vêm de há mais tempo e que são amigáveis”.

Na inauguração vão estar o grão-duque herdeiro Guillaume e a grã-duquesa herdeira Stéphanie de Lannoy. A ver de 10 de julho a 23 de setembro, no Museu Nacional de História e Arte, no Marché-aux-Poissons, na cidade do Luxemburgo..

Paula Telo Alves






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