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“A inexorável escravatura dos negros”
Opinião Cultura 9 min. 02.12.2022
Colonialismo

“A inexorável escravatura dos negros”

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“A inexorável escravatura dos negros”

Opinião Cultura 9 min. 02.12.2022
Colonialismo

“A inexorável escravatura dos negros”

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Por que razão a visão de Ferreira de Castro acerca da escravatura, do racismo e do sistema colonial não suscitou a atenção dos estudiosos das vanguardas artísticas e literárias?

Está por resolver a questão de se saber qual o impacto, na cultura portuguesa, do projecto colonial de Paiva Couceiro e Norton de Matos. Este último tomou forma ao longo do primeiro quartel do século XX, atravessando dois ou talvez três regimes políticos. Do ponto de vista da vanguarda modernista, constituída em torno da revista Orpheu (1915) só, talvez, Fernando Pessoa se envolveu no combate por um conjunto de ideias emancipatórias.

Fê-lo à distância, em escritos que permaneceram inéditos, na sua arca... Neles, o poeta dobrado de ensaísta abordou temas tais como a escravatura, o racismo, os impérios coloniais militarizados e culminou com esse modelo pacifista de um Quinto Império cultural. Porém, de uma forma geral, o modernismo não se envolveu nas mesmas interrogações – ou só veio a fazê-lo tardiamente – , inspirando-se no primitivismo africano à maneira de Picasso. Uma constatação deste tipo, na medida em que excepcionaliza o caso de Pessoa em relação aos escritores e artistas da vanguarda modernista, implica outras sondagens que atendam ao papel desempenhado por outros grupos e autores.

De Aquilino Ribeiro a Vitorino Nemésio, talvez o caso mais mal estudado continue a ser o de Ferreira de Castro. Naquela que pode ser considerada a sua melhor obra, pela riqueza de informação coligida, o historiador José-Augusto França dedicou-lhe algumas páginas, na sequência do que também fez, mais extensamente, com Aquilino (Os Anos Vinte em Portugal: Estudo de factos sócio-culturais, 1992, pp. 334-341). Contudo, em nenhuma delas se apercebeu do modo como, desde muito cedo, o jovem Ferreira de Castro se mostrou atento às questões da escravatura, do racismo e dos impérios coloniais. Talvez tivesse influído no desinteresse de França em relação a algumas facetas de Ferreira de Castro o facto de algumas das suas publicações anteriores aos seus grandes romances – Emigrantes (1928) e A Selva (1930) – serem de difícil acesso.

De qualquer modo, as abordagens daquele que muito jovem se vira obrigado a emigrar para o Brasil, de onde regressou feito jornalista, foram públicas (ao contrário do que sucedeu com Pessoa). Começaram por surgir numa publicação periódica, que ele próprio fundou e onde colaborou extensamente recorrendo a vários pseudónimos, intitulada A Hora – Arte, actualidade, questões sociais, seis números publicados entre Março e Abril de 1922. Sendo de notar que a pequena novela da sua autoria, intitulada Sangue Negro, onde parece existir o retrato do jornalista santomense Mário Domingues, saiu com a indicação expressa de ter sido editada pela “Biblioteca A Hora”. 

Logo no primeiro número, a par de um balanço sobre a situação dos grupos de literatos e escritores – uma preocupação pela profissionalização dos escritores também revelada, a partir de 1923, no jornal anarquista A Batalha – , Ferreira de Castro condenou as mais diversas formas de dominação colonial. A primeira imagem a que recorreu era forte, pois começava por ser a do cutelo que era capaz de vencer a resistência e de se abater sobre as cabeças dos rebeldes da Irlanda, da Índia colonial britânica e de Marrocos. Logo após, vinha o caso de Portugal com as suas colónias, onde “a Rebeldia ainda não tem cabeça – ainda não tem corpo” (A Hora..., n.º 1, 12-3-1922). O que fazia, nas suas colónias, Portugal? Com a sua “bandeira de senhor feudal”, Portugal “domina, tiraniza, escraviza”.

Na sua denúncia do sistema colonial, Ferreira de Castro recorre a um estratagema. Por um lado, antecipa futuras críticas e modos de coartar o seu pensamento, explicando que não se trata de pregar a emancipação, pois se o fizesse seria logo apodado de traidor à pátria, o que implicava que, para tirar as algemas aos outros, se teria de algemar a si próprio, perdendo a sua liberdade.      

Por outro lado, refere que todas as colónias de Moçambique, Angola, Guiné, S. Tomé, Cabo Verde e Açores se iriam transformar em pátrias: “hão de tornar-se livres as feitorias escravas. Independentemente, o território vasto que um senhor despótico oprime há cinco séculos – em nome de uma civilização que ele nunca soube adquirir nem para si”.

Recorrendo ao subterfúgio da mera hipótese e de que não estava propriamente a apelar à emancipação, Ferreira de Castro anunciou como inevitável a libertação das colónias e a sua transformação em novas pátrias. Por isso, podia ser tida como adquirida – “inevitável ou inexorável” – a escravatura (no duplo sentido do termo, de falta de liberdade e de exploração da força de trabalho). No entanto, era de reparar que, precisamente em 1922, Portugal estava disposto a pagar com generosidade as comemorações da independência do Brasil, quando há um século atrás teria dado, isso sim, uma soma ainda mais elevada para “sufocar no nó assassino duma forca esse anseio de liberdade prematura contra a sua tirania senil”.

O mesmo se teria passado em Inglaterra que, em 1776, teria trocado um tesouro pela cabeça de Washington, queimando o seu corpo e arrastando a sua cabeça pelas calçadas. Mas, mais de um século depois, a mesma Inglaterra mandava os seus poderosos cruzadores fazerem salvas de canhão pelo grande emancipador, elogiado pelos seus ministros.

Que contraste entre essa atitude e a perseguição surda movida à “cabeça apostólica de Ghandi – essa cabeça que nas sombras misteriosas da Índia consegue iluminar a alma dos escravos com o sol inapagável da Liberdade”. Mas, que não houvesse dúvidas – antevia Ferreira de Castro – não demoraria muito até que o embaixador britânico viesse solicitar uma audiência a Ghandi feito presidente.

Frente a todos estes exemplos, Ferreira de Castro chega a uma conclusão mais geral: “os dominadores sentem que a juventude daquela liberdade é a agonia da decrepitude da sua escravatura”. Por isso, são os próprios dominadores que transigem, até chegar a erguer-se o busto do emancipador.

Qual a conclusão de todo este arrazoado de ideias anti-coloniais? É que até parecia que só nos domínios portugueses não se ouviam gritos de rebeldes pela emancipação. Porquê esta ausência de resistência, de rebeldia, de vontade em combater pela liberdade? Poderia um tal silêncio ser tido como indicador de que eram “realmente os pretos seres inferiores?”.

Melhor dizendo: “acaso a escravatura foi um ferrete aposto infamemente no fraco pelo forte, ou é antes uma manifestação psicológica, inevitável e inexorável dos negros?”

Claro que, no espírito de Ferreira de Castro o que mais valia era que a escravatura e todas as formas de dominação colonial eram impostas por quem detinha o poder do mando. Sem a consciência dessa dominação imposta pelas potências coloniais, incluindo Portugal, não haveria emancipação possível.

No número 2 de A Hora, Ferreira de Castro voltou à carga. Trouxe, então, à colação o Batouala (1921) de René Maran, escritor negro da Martinica. Merecedor do prémio Goncourt, não tanto pelo seu estilo, mas pela sua rebeldia e capacidade em denunciar a escravização das almas pelo tráfico. Reivindicador, também dos direitos dos negros, sobretudo dos que habitavam no Congo.

Em face do exemplo de Maran, perguntou Ferreira de Castro: “o que fizeram os portugueses dos negros?” Primeiro, levaram-lhes uma “cruz traiçoeira, em nome da qual pregavam uma civilização que eles próprios não possuíam”. Enquanto o faziam, através de embaixadores régios, desenvolveram a “traficância” exercida sobre os corpos dos negros. Era ela que “algemava os negros, empunhava um chicote, e nos corpos aprisionados abria longas fendas, por onde se libertava o sangue dos escravos”. Depois, os negros traficados eram trazidos até às margens do Atlântico, sendo revendidos aos intermediários, que os metiam em porões para os levar a outros continentes. Tudo isto sempre com a violência do chicote, das feridas e dos cadáveres. Enfim, “os negros foram as minas da Califórnia de Portugal embriagado de riqueza”. Não necessitavam de educação, eram simples produto para auferir lucros.

Nesta breve história da escravatura portuguesa em África, quando chegou a época da abolição da escravatura, foram enviadas missões para “pregar a obediência ao dominador ex-senhor”. E, de novo, lá veio a Cruz de Cristo em auxílio de tais missões,  para que, em lugar dos negros continuarem a vender o seu corpo, passassem tão-só a vender os seus braços. Iniciou-se, então, um período em que os dominadores passaram a sorver aos negros o produto do seu trabalho. E quando estes se rebelavam, em lugar de serem chicoteados, eram mandados fuzilar. Só assim se compreendem as tais campanhas, movidas contra os que se rebelavam. Sendo as mais conhecidas as do Cuamato e a que levou ao aprisionamento de Gungunhana. Ao mesmo tempo, a escravatura legal foi substituída pela escravatura consentida, baseada em contratos.

“E a África continua a ser um imenso feudo, no qual ao sangue dos mortos, dos escravos, das lágrimas dos que foram martirizados, vêm juntar-se as lágrimas e sangue e suor dos que são dirigidos; dos que vivem sob a tutela do senhor que vive na Europa a dirigir revoluções em prol da democracia”.

Na sua perspectiva emancipatória e progressista, Ferreira de Castro não foi um caso isolado. Faz parte de um grupo, que integrou Roberto Nobre, Assis Esperança, Mário Domingues e Reinaldo Ferreira – autores pouco reconhecidos e mal vistos por uma espécie de cânone oficial que teima em impor-se. Resta saber por que razão a sua visão acerca da escravatura, do racismo e do sistema colonial nunca suscitou a atenção dos estudiosos das vanguardas artísticas e literárias. Será que a literatura e os seus críticos, em busca de uma autonomia estética, preferem sempre o lado asséptico e apolítico dos escritores e das obras que tomam por seus objectos?  

 (Autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.)

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