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A ignota biblioteca de Manguel, a jogada de Medina e a cultura portuguesa à deriva
Opinião Cultura 10 min. 16.09.2022
Jogadas

A ignota biblioteca de Manguel, a jogada de Medina e a cultura portuguesa à deriva

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A ignota biblioteca de Manguel, a jogada de Medina e a cultura portuguesa à deriva

Foto: Lusa
Opinião Cultura 10 min. 16.09.2022
Jogadas

A ignota biblioteca de Manguel, a jogada de Medina e a cultura portuguesa à deriva

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Quando essa espécie de Conde de Cagliostro new age veio bater à porta do Largo do Pelourinho, impôs-se a jogada matreira: toma lá um palácio, um gabinete, mais três bibliotecários, passa para cá essa ignota biblioteca e os contactos internacionais. Medina esfregou as mãos – imagino - e, deliciando-se com o golpe, pensou: este já foi na conversa. Menino, que jogada!

Trabalho diariamente na Biblioteca Nacional. Sou um leitor assíduo da Torre do Tombo. Ultimamente, tenho ido pouco à Biblioteca da Ajuda e são poucas as vezes que vou a Évora, à Biblioteca Pública, como fiz durante muitos anos. Visito com alguma regularidade o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu do Chiado e o Museu de Etnologia. Considero que todas estas instituições têm à sua frente direcções competentes e funcionários motivados. Não me queixo, pois, do modo como sou acolhido por tais instituições, que fazem parte do património colectivo dos portugueses. Tenho, aliás, razões de sobra para louvar todos os que nelas trabalham, pela sua elevada noção de serviço público.

Do que me queixo é do abandono a que essas instituições têm sido votadas, devido às políticas erráticas de sucessivas tutelas. Sobretudo no domínio do livro e dos arquivos, que conheço melhor, falta quase tudo: indexação, restauro, encadernação, uma política sistemática e informada de aquisições, centros de investigação no interior dessas mesmas instituições, capacidade para manter políticas editorais próprias, valorização de pessoal especializado, incluindo a sua formação, perspectivas de carreira e o deixar de ridicularizar os salários dos bibliotecários e arquivistas, bem como dos seus directores, etc.

Ultimamente, só se nota uma febre, um tanto ou quanto desorientada, pela digitalização, talvez por se tratar de uma tecnologia que favorece os contratos com empresas privadas. Para além dos normais investimentos em edifícios. Tudo o resto parece ter sido votado ao abandono e reflecte uma atitude quase criminosa de desprezo pelo património, o seu estudo e conservação.  

Na semana passada, argumentei nesta coluna que a principal razão para a falta de investimento nessas mesmas instituições – que assim se vêem impossibilitadas de organizar o seu planeamento, logo, de ter uma visão estratégica – se deve a um desvio permanente dos dinheiros públicos para iniciativas que são da ordem do circunstancial, do espectáculo, do foguetório, das celebrações e comemorações. Em suma, políticas áulicas e de circunstância que chutam para canto as instituições de cultura e desclassificam quem nelas trabalha.

De forma mais concreta, escrevi, em tempos, sobre essa estrutura de missão que torrou cerca de um milhão de euros, com gente ligada ao PS, para organizar a representação portuguesa na Feira de Guadalajara. Um escândalo inconsequente, interessado na promoção e nas passeatas de alguns amigos e familiares, que levou os seus responsáveis a assobiar para o lado! É que é tão bom sair da miséria e viajar à conta até ao México, que quem critica só pode ser movido por pura inveja e vontade de dizer mal. Para não falar da inevitável propensão para a polémica. Enfim, tais críticos não passam de uma cambada de invejosos. Uns miserabilistas, menino!

Também tenho insistido, a ver se encontro algum escrutínio, na questão das dotações orçamentais anuais, de mais de um milhão de euros, que estão a ser gastas (ou não?) nessa outra estrutura de missão que corresponde às Comemorações da Viagem de Fernão de Magalhães. Uma vez verificado o silêncio que impera sobre todo o processo, será que a referida Comissão passou à clandestinidade? E qual o paradeiro das verbas orçamentadas que tanto jeito dariam se fossem distribuídas pelos museus e bibliotecas.


Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.
Portugal. Que a política da cultura acabe com os foguetórios
Que a Cultura dos Socialistas deite pela borda fora as celebrações, os foguetórios, as cerimónias e o estilo áulico e de circunstância.

Há duas semanas, nesta coluna, também dei a entender que Pedro Adão e Silva, ao ter saltado da Comissão das Comemorações do 25 de Abril de 1974 para o Ministério da Cultura, corre o risco de confundir alhos com bugalhos e pôr as instituições patrimoniais ao serviço das lógicas do espectáculo e das políticas áulicas. Essa mesma Comissão, depois de uma exposição na Faculdade de Ciências sobre o movimento estudantil, também passou à clandestinidade? Acrescente-se que o simples facto de o ministro ainda não ter visitado a Biblioteca Nacional, para se inteirar do que ali se passa, a somar às raras vezes que lá entrou, não augura nada de bom.

Será tudo isto simples consequência do desnorte em que anda este governo?  Assim parece, a julgar pela escolha de um dos assessores do Ministro da Cultura, um amigo pessoal de carreira errática, a lógica é sempre a mesma: simples reprodução do modelo constituído pela larga clientela de um primeiro-ministro que, ao ter obtido a maioria absoluta, poderia ter escolhido os melhores e não o fez. Preferiu dar a mão aos seus fiéis apaniguados (apenas com uma ou outra excepção, como é a do ministro Cravinho, a confirmar a regra). 

A nível da capital, existem outras instituições públicas de cultura que não dependem da tutela do governo. Refiro-me ao que está a suceder com as instituições que dependem da Câmara Municipal de Lisboa. E o que está Carlos Moedas a fazer no sentido de dar condições aos organismos que dependem de si para funcionar, a começar na Biblioteca do Palácio das Galveias e a terminar no Palacete dos Marqueses de Pombal? Pouco ou nada se sabe. Embora seja certo que este último palacete se viu, nos últimos anos, envolvido num patético enredo: o de ter sido destinado para alojar a biblioteca dita de 40 mil volumes do escritor argentino-canadiano Alberto Manguel.

Anos volvidos sobre o anúncio e assinatura do protocolo, ainda no mandato de Fernando Medina, onde está a biblioteca que nem catálogo possuía para poder ser avaliada? Já lá mora? Qual é ao certo o seu quadro de bibliotecários que, ao que consta, se encontra já a realizar esse trabalho e a programar as actividades em articulação com o doador? Terá o processo de transporte e organização da mesma biblioteca andado para a frente e estará a Câmara Municipal de Lisboa, através de um dos seus organismos, em condições de prestar contas ou esclarecer se o projecto da anterior edilidade naufragou na praia? E porque teve Moedas de continuar a enfiar o barrete que Medina elegeu como uma prioridade, sem denunciar a situação criada e procurando repor alguma razoabilidade?

É que qualquer alternativa a esse acto de aceitação de uma biblioteca parece ser melhor do que este silêncio envergonhado, clandestino, sobre um protocolo que raia o ridículo. A Câmara Municipal de Lisboa deve, isso sim, dotar de meios e alargar os quadros da rede de bibliotecas públicas que tem a seu cargo. Quanto aos destinos a dar ao Palacete dito dos Marqueses de Pombal, às Janelas Verdes, não seria melhor procurar articular funções e actividades com esse outro grande polo cultural, sempre carente de espaço, que é o Museu Nacional de Arte Antiga? Afinal, mesmo que dependam de diferentes tutelas – Ministério da Cultura ou Câmara Municipal de Lisboa – , os dois edifícios são património público, por isso, o seu uso necessita de ser aproveitado em benefício de todos.

Estou também convencido que, se a Câmara Municipal de Lisboa tivesse uma política cultural, baseada num verdadeiro interesse patrimonial, teria procedido de uma outra forma. E só espero que Carlos Moedas, apesar da lentidão que o caracteriza, possa reverter o mal fundado de todo este processo. Antes de mais e porque se trata de enriquecer o património bibliográfico e de favorecer os eventos em torno do livro e da leitura, pergunto: não existirão por aí muitos outros curadores e bibliotecários, sem terem ainda atingido a idade de reforma, com muito mais competência para promover o livro e a leitura na cidade de Lisboa. E não existirão, também, por aí outras bibliotecas, públicas e privadas, merecedoras de uma maior atenção? A questão é pertinente, pelo menos, em relação a uma biblioteca como a de Manguel, de que se fala, apenas, por o seu proprietário ter lido para Jorge Luis Borges, mas cujo valor se desconhece, porque nunca foi catalogada.     

Mas o que sabe o Estado e a edilidade lisboeta das grandes bibliotecas portuguesas, construídas nas últimas décadas? Refiro-me tanto às grandes bibliotecas enciclopédicas, como é a dos historiadores António Henrique de Oliveira Marques e João Alves Dias, ou a bibliotecas mais especializadas como as de Martim de Albuquerque, Daniel Nunes e Luís Bigotte Chorão.

No momento em que Sofia Pinto Coelho, acaba de lançar o seu filme sobre Daniel Nunes e a sua filha, a maior biblioteca sobre história de África e escravatura volta a estar na ordem do dia. Conheço a biblioteca do Daniel Nunes, desde há quarenta anos. Sei como ela foi constituída e atribuo-lhe um valor que permitiria estabelecer pontes entre Lisboa e outros países de expressão portuguesa. Não comparo esta biblioteca com nenhuma outra. Sobretudo, não a poderei comparar com uma biblioteca como a de Alberto Manguel que, apesar de desconhecida e segundo consta sem raridades, mereceu o labor já de três bibliotecários, que catalogam uma fraquíssima colecção de livros.

Gente próxima da anterior edilidade, garantiu-me que uma das razões para a imediata aceitação da oferta de Manguel se prendeu com o facto de o mesmo dispor de muitos contactos internacionais. Por isso, seria capaz de fazer entrar gente de grande gabarito, a alta roda de escritores e intelectuais, nas actividades culturais previstas para terem lugar em torno da biblioteca. Tudo isto cheira mais a fascínio pelo jet set internacional por parte de um responsável bem provinciano.

Ou seja, Manguel – terá pensado de forma matreira Fernando Medina ou quem o representava – era conhecido lá na estranja. Logo, deixa cá aceitar a sua biblioteca disponibilizando para o seu tratamento só três bibliotecários (que bem feitas as contas devem custar mais do que o ex-futuro assessor para as Finanças, o badalado Sérgio Figueiredo), para depois podermos utilizá-lo para projectar Lisboa lá fora. O negócio era este: Lisboa só tinha a ganhar...

Pelo preço de uma galinha, obtinha-se um porco. É que, bem vistas as coisas, segundo Medina, ninguém lá na Câmara tinha contactos lá fora. Por isso, quando o conde de Cagliostro new age veio bater à porta do Largo do Pelourinho, o golpe foi dado numa só jogada: toma lá um palácio, um gabinete, carta branca para a animação cultural, mais três bibliotecários; passa para cá essa ignota biblioteca e os contactos internacionais.

Imagino. Medina olhou pela janela, esfregou as mãos e, excitado com o golpe, exclamou: este já foi na conversa. Menino, que jogada! E, agora, lá do poleiro do Terreiro do Paço, talvez prefira pensar – sempre de forma peremptória, mas enfastiada, dada a magnitude dos orçamentos que o rodeiam – que nunca ouviu falar no tal Manguel. Só lamenta não ter tido a possibilidade de pagar ao dito assessor, seu amigo, todos os favores. Uma injustiça, quando, na Câmara de que foi corrido, até contratara, sem problemas, três ignotos bibliotecários...

   (Autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.)

        

 

 

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