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A história de um bairro luxemburguês pintada por uma portuguesa
Cultura 6 5 min. 18.05.2022
Arte urbana

A história de um bairro luxemburguês pintada por uma portuguesa

A artista Mariana Duarte Santos veio de Lisboa para pintar um mural dedicado à história do bairro de Lallange, em Esch-sur-Alzette.
Arte urbana

A história de um bairro luxemburguês pintada por uma portuguesa

A artista Mariana Duarte Santos veio de Lisboa para pintar um mural dedicado à história do bairro de Lallange, em Esch-sur-Alzette.
Foto: Guy Jallay
Cultura 6 5 min. 18.05.2022
Arte urbana

A história de um bairro luxemburguês pintada por uma portuguesa

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
A artista Mariana Duarte Santos foi convidada a retratar numa parede a história do bairro de Lallange. Enquanto a lisboeta pintava o mural em Esch-sur-Alzette, o luxemburguês Alain Welter fazia a viagem contrária para dar cor a uma parede de Arroios.

Por estes dias, já ninguém passa indiferente àquele mural gigante na Rue de Cologne, no bairro de Lallange, em Esch-sur-Alzette. É uma parede com um jogo de cores a contrastar com o preto e branco, de alto a baixo, num edifício castanho de três andares, com cerca de nove metros de altura. As figuras a preto e branco representam as pessoas e as memórias do passado do bairro, enquanto os elementos coloridos refletem o presente, como as crianças e as casas. É a história de um local luxemburguês contada por uma artista portuguesa.

Mariana Duarte Santos tem 26 anos e é de Lisboa. Nasceu e cresceu na capital, onde cedo começou a desenvolver a sua paixão pela arte. Aos 14 anos já fazia umas "coisas mais a sério" e arranjou os primeiros trabalhos de ilustração. Seguiu estudos artísticos, mas considera que o percurso académico não é muito relevante, porque aprendia mais sozinha ou com outros artistas. Fez pinturas, desenhos e gravuras de ateliê e, há três anos, começou a pintar murais. A partir daí, foram surgindo vários projetos. Um deles levou-a até ao Luxemburgo.

A artista foi convidada a participar num projeto do centro cultural Kulturfabrik e do Centro Luxemburguês de História Contemporânea e Digital da Universidade do Luxemburgo, no âmbito do evento Nuit de la Culture, que promove a descoberta de lugares invulgares e desconhecidos da cidade, e do Esch2022 – Capital Europeia da Cultura. A ideia era fazer uma troca de artistas. Enquanto um luxemburguês ia a Portugal pintar um mural, uma portuguesa vinha ao Luxemburgo fazer a obra homóloga. Alain Welter foi para Lisboa, Mariana veio para Esch.

A lisboeta visitou o Grão-Ducado pela primeira vez em fevereiro, para se encontrar com os habitantes de Lallange e assim se inspirar para contar a história daquele bairro e das pessoas que lá vivem. "Este mural nasceu de uma pesquisa sobre o bairro, através de conversas que tive com as pessoas e com os historiadores da Universidade do Luxemburgo. Depois fiz vários esboços com diferentes propostas e as pessoas votaram naquela que preferiam e mais se identificavam", recordou a artista, que voltou a Esch no início deste mês para concretizar a obra.

O mural foi inaugurado na passada sexta-feira, depois de Mariana ter estado a pintar a parede durante uma semana. À versão original do desenho, a artista acabou por adicionar mais alguns detalhes, como o antigo aeródromo de Esch, que funcionou naquele bairro entre 1937 e 1954 e que permitiu a primeira ligação aérea entre o Luxemburgo e Inglaterra. Em vez de uma estrada, pintou um lago gelado, porque antigamente as pessoas faziam patinagem no gelo dos lagos, que com o tempo e a construção do bairro acabaram por desaparecer.

Também a preto e branco, as tintas que remetem para o passado, a autora desenhou um álbum de fotografias antigas, "como um agradecimento às pessoas que partilharam as suas fotos para o projeto". Outra particularidade que as pessoas referiram foi o contraste entre a natureza e o betão. "Foi um bairro que teve o seu desenvolvimento nos anos 50 e a natureza desapareceu toda. Então incluí uma planta em cima do passeio, para passar a mensagem de que, apesar da construção, a natureza prevalece sempre", explicou Mariana.

"Será que saí de Portugal?"

A obra também faz referência aos muitos emigrantes que vivem no bairro, com uma "conexão à família e aos países de origem". A artista não fez nenhuma ligação com a comunidade portuguesa em particular, mas sim com as "memórias das famílias, porque os emigrantes não são só de Portugal", esclareceu. "É mais sobre o bairro em si, as pessoas que vivem lá, os sentimentos e as memórias do que foi importante para o bairro".

O mais importante para mim é ver que as pessoas se identificam com o que pintei. É o propósito disto.

Mariana Duarte Santos

Mariana reconhece que foi um trabalho cansativo, "de manhã à noite, com sol e vento", mas sente que a missão foi cumprida: "É o que eu gosto de fazer e acho que correu bem". Enquanto pintava, os residentes que iam passando na rua paravam para olhar e comentar. "É sempre giro conversar com as pessoas que passam. Dizem que gostam ou fazem perguntas sobre o mural. Um rapaz contou-me que costumava brincar no jardim destas casas. Uma senhora mais velha que vive nesta rua disse que gostou imenso. O mais importante para mim é ver que as pessoas se identificam com o que pintei. É o propósito disto", assegurou.


O artista açoriano António Correia, de 45 anos, anda desde 18 de outubro a pintar um mural na gare da segunda maior cidade do Luxemburgo.
Há poesia em movimento nas paredes da gare de Esch
O artista de rua português Pantonio está a dar uma nova cor à gare de Esch-sur-Alzette. Inspirado pelas suas origens, o açoriano quer levar o mar aonde ele não existe.

A maior parte dessas pessoas abordava Mariana em francês ou luxemburguês. "Eu dizia que não percebia. Mas é sempre giro ver as diferentes reações e ouvir os comentários. Ia percebendo pela postura se o que diziam era positivo ou não", contou. A artista também ouvia muitas pessoas a falar português. "A ligação com Portugal é engraçada, porque na primeira vez que vim cá só ouvia português em todo o lado e só pensava ‘será que saí de Portugal? Será que eu perdi o voo?’ (risos). Foi um bocado estranho, mas é bom ver essa grande comunidade portuguesa aqui no Luxemburgo".

Na primeira visita ao Grão-Ducado, a lisboeta não teve a oportunidade de conhecer muito da capital, porque passou mais tempo em Esch. "Gostei imenso de conhecer Esch e de estar cá a trabalhar Visitei alguns sítios e tentei conhecer um pouco, apesar de ter estado pouco tempo", reconheceu. Por ora, Mariana tem outros projetos internacionais, em Santiago de Compostela e na Irlanda, mas tem curiosidade em voltar ao país. "Para visitar a Cidade do Luxemburgo, que acabei por não conhecer. Gostava de voltar a trabalhar cá no futuro".

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