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A guerra, fria como raramente a vimos
Cultura 3 min. 10.01.2020

A guerra, fria como raramente a vimos

A guerra, fria como raramente a vimos

Cultura 3 min. 10.01.2020

A guerra, fria como raramente a vimos

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Crítica do filme “1917”, realizado pelo luso-descendente Sam Mendes.

 Sempre que se fala de Sam Mendes não consigo deixar de lembrar que o realizador britânico tem sangue português. Mendes é bisneto de Alfred Mendes, filho de Francisco Mendes, um português obrigado a fugir da Madeira no tempo das perseguições a Robert Kalley. Mais de 2.000 portugueses foram expulsos da ilha por razões religiosas tendo-se refugiado em Trinidad e Tobago, nas Bermudas e nos Estados Unidos, onde os madeirenses evangélicos fundaram a cidade de Jacksonville, no estado de Illinois.

O bisavô de Sam Mendes, Alfred, tornou-se em Trinidad e Tobago um importante membro da comunidade calvinista portuguesa. Foi um dos fundadores do Portuguese Club local e foi o seu primeiro presidente. Foi ainda vice-cônsul de Portugal em Trinidad e Tobago entre 1931 e 1948.

Isto não muda nada ao filme que hoje aqui nos traz, mas dá-nos orgulho mais uma vez na nossa rica e antiga diáspora.

Sam Mendes é um realizador admirável e está nas salas um filme que mostra a sua capacidade para surpreender e para nos prender ao ecrã.

“1917” é uma obra épica sobre a Primeira Guerra Mundial, que foi filmado quase num único “take” do princípio ao fim, deixando-nos num estado permanente de atividade, apesar de só sermos espetadores. 

Antes de começar a ação pura que enche este filme, “1917” começa com um momento de serenidade: dois soldados britânicos descansam num campo numa estranha tranquilidade. Mas essa paz não dura. De repente, esses dois soldados, tão diferentes, são escolhidos para uma verdadeira missão suicida. Ambos terão de atravessar as linhas inimigas para impedir uma emboscada que os alemães estarão a preparar. Do resultado da ação militar dos dois homens depende a sobrevivência dos seus companheiros de armas e, inclusivamente, de familiares.

E a partir daí é sempre a abrir. A câmara acompanha cada passo dos dois homens sem cortes. Um trabalho deste tipo tem as suas dificuldades porque a câmara está limitada nos seus movimentos, mas o realizador e o responsável pela fotografia – Roger Deakins – conseguem evitar safanões que possam distrair.

Tecnicamente falando há muito poucos defeitos a apontar a “1917”. A fotografia de Deakins é excecional, o que não é de surpreender já que estamos perante um dos melhores especialistas nesta área.

Algumas das imagens desta película ficarão gravadas nas nossas retinas, como é o caso do momento da fuga de um dos soldados através de uma aldeia em plena noite com o céu a explodir. Inesquecível.

O argumento escrito por Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns é poderoso e consegue revelar os horrores da guerra deixando transparecer alguns momentos de beleza e esperança. Contudo, no seu conjunto, “1917” é, sobretudo, um filme terrível, mostrando paisagens cobertas de cadáveres, aldeias queimadas e ratazanas que se alimentam de mortos.

O público sente o peso desse horror e, mais importante, é visível o efeito desse terror nas personagens. Os dois protagonistas, George MacKay e Dean-Charles Chapman, assinam uma prestação fabulosa: sente-se a exaustão física e mental,  além do medo que todos os intervenientes na guerra sentem em permanência.

“1917” de Sam Mendes, com George MacKay , Dean-Charles Chapman , Mark Strong , Andrew Scott , Richard Madden e Benedict Cumberbatch .