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A doce vida dos britânicos
Cultura 3 min. 05.02.2021

A doce vida dos britânicos

A doce vida dos britânicos

Cultura 3 min. 05.02.2021

A doce vida dos britânicos

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Pai e filho na vida real, Liam Neeson e Micheál Richardson protagonizam uma comédia dramática cuja ação se desenrola em Itália, e que é a primeiro longa metragem do ator James D'Arcy como argumentista e realizador.

O efeito salutar sobre os britânicos do sol da Toscana parece ter o poder de abrir o coração e libertar o rígido lábio superior dos ingleses. E esta ideia já deu origem a um subgénero de filmes cada vez mais populares.

Usando a mudança de cenário para explorar a relação entre pai e filho, “Made in Italy” não ficará certamente para a história como um filme memorável, sobretudo porque tem aspetos previsíveis de romance e utiliza uma velha receita bem definida.

Na sua estreia como realizador, o ator James D'Arcy não esconde a admiração que lhe provoca a luz de postal ilustrado do campo italiano e pelas vivências de uma pequena terrinha típica, talvez típica demais para ser real...

Mas a principal preocupação do realizador, e argumentista, é com a emoção que o local provoca nas personagens principais.

O filme tem a grande virtude de nos deixar ver Liam Neeson numa excursão bem longe do de seu território habitual dos thrillers de ação. O ator é protagonista com Micheál Richardson, que é o seu filho mais velho e que teve com a falecida Natasha Richardson.

A história terna de pai e filho, com lágrimas à mistura, parece um tanto artificial, apesar da considerável ressonância que penetra o argumento.

Liam Neeson é Robert Foster, outrora um pintor famoso, que agora vive de rendimentos e de uma galeria em Londres que é gerida pelo filho Jack. Um divórcio iminente e a necessidade de investir do filho, são o pontapé de saída para a ação de “Made in Italy”.

Jack vê a casa da família em Itália como a solução para os seus problemas de dinheiro, e vai para lá tentar convencer o pai a efetuar uma venda rápida que resolva as dificuldades.

Dado que Robert e Jack raramente se falam, fica-se com a impressão que a venda não aquece nem arrefece o pai, ou que, por outro lado, talvez ele esteja pronto para enfrentar conscientemente a perda devastadora da sua esposa italiana há vinte anos atrás.

Rapidamente, pai e filho vão reconhecer a falta de sintonia. Esse aspeto quase cómico do relacionamento de ambos é muito mais convincente do que a tensão melodramática que D'Arcy se esforça para transmitir.

Os dois homens chegam à terra a meio da noite e, gradualmente, vão descobrindo as camadas de poeira e de teias de aranha, insetos mortos e vermes vivos que tomaram conta do lugar, sem falar dos posteres de Harry Potter no quarto de Jack de quando ele tinha sete anos.

Mas nem tudo são boas recordações simpáticas. Há momentos fortes, tais como o intercâmbio entre Robert e a agente imobiliária, uma britânica emigrada: ambos trocam declarações de sabedoria com franqueza e honestidade. Aliás o argumento foi escrito de forma nítida e executado sem o menor maneirismo por parte dos atores.

O romance de Jack com a dona de trattoria rapidamente se torna um elo fraco da história. E o recrutamento de veteranos atores italianos para várias personagens secundárias torna o filme bastante folclórico.

“Made in Italy” deixa a impressão de que podia ter sido uma excelente comédia se não tivesse tentado optar pela profundidade. O filme podia ter sido um destruidor de corações, um produtor de lágrimas em catadupa para o qual pai Neeson e filho Richards trouxeram uma tristeza e uma energia incrível. Só é pena que o realizador e argumentista não tenha tornado esta viagem a Itália verdadeiramente memorável.

“Made in Italy” de James D’Arcy, com Liam Neeson, Micheál Richardson, Valeria Bilello, Lindsay Duncan, Yolanda Kettle, Gian Marco Tavani e Helena Antonio.

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