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A aventura extraordinária do senhor Lata

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A aventura extraordinária do senhor Lata

A aventura extraordinária do senhor Lata

A aventura extraordinária do senhor Lata


por Ricardo J. RODRIGUES/ 13.10.2020

Foto: António Pires

A vida de Lata Gouveia é uma bela aventura. Nasceu em Lisboa, fez-se músico em Londres, tocou num dos maiores festivais do mundo, o South by Southwest, e em bares de fim de estrada no Oklahoma. Quando chegou ao Grão-Ducado, há 10 anos, sentiu que faltava identidade musical ao Luxemburgo. Então fundou o The Grund Club, que anda a dar nas vistas por estes dias em Clausen.

Foto: António Pires

Visto da rua, nem sempre se percebe o mundo que existe para lá das portas do Culture Bar, no número 61 da rue de Clausen, ali no coração boémio da capital luxemburguesa. Só um quadro de ardósia aponta que hoje há concerto. Na verdade, há música ao vivo todas as segundas, quartas e sextas – mas às vezes também às quintas, e outras vezes também aos sábados. O palco está montado lá ao fundo, no fim de uma sala comprida onde a atenção está todinha virada para os artistas. Três, dois, um, o espetáculo vai começar.

Em 2015, ano de fundação do The Grund Club
Em 2015, ano de fundação do The Grund Club
Foto: Lugdivine Unfer

Desde o fim do período de confinamento que os concertos no Culture embalam os fins de tarde do bairro. O bar tornou-se na residência oficial do The Grund Club, um coletivo que junta novos talentos e intérpretes confirmados do Grão-Ducado. “O que nos interessa aqui, mais do que os músicos, são as cantigas”, diz Lata Gouveia, 45 anos, que fundou o movimento em 2015. “O que estamos a fazer é um catálogo de canções originais, que todos possam partilhar entre si, e assim formar uma espécie de identidade musical no Luxemburgo.” Lata, que na verdade se chama Hugo Gouveia, conseguiu este feito: unir 40 artistas com um mesmo propósito. “Vamos intercalando o palco do Culture entre os nomes mais conhecidos e os que se procuram agora afirmar. Damos-lhes o apoio técnico, a experiência de atuar ao vivo, ajudamos com os arranjos. Este país tem uma forte tradição de jazz, e por isso é daqui que a identidade tem de partir. Penso que é esse o tom do futuro: músicas tocadas direitinho, com boas vozes por cima.”

Num tempo de aperto para os artistas, Lata e o seu clube estão a tentar criar a exceção. “Nas minhas viagens percebi que virarmo-nos cada um para seu lado e escondermos o nosso repertório é uma coisa que encerra, não abre.” E depois começa a contar uma história extraordinária.

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A descoberta da música
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Foto: António Pires

Nasceu em Lisboa, e não é que a sua educação fosse particularmente musical – a batida sempre pareceu ter-lhe vindo de dentro. Aos 14 anos o pai arranjou posto no Tribunal Europeu e mudou-se com a família para o Luxemburgo. “Estudava na Escola Europeia e foi aí que comecei a dar os primeiros toques. Cantava, sobretudo, e tinha um amigo que me acompanhava nos ensaios. Tocávamos Guns’N’Roses e Doors nas festas do liceu e, bom, o que queríamos era conhecer miúdas.”

Aos 17 anos entrou em economia na University College de Londres e mudou-se para a City. “Foi uma revelação. Nas aulas, fiz um amigo inglês que me juntou ao grupo dele. Eram todos músicos, todos muito alternativos. Se havia qualquer coisa que estava na moda, ninguém gostava.” A exceção era o grunge, que por esses dias emergia dos bares de Seattle. “Mas aquilo que gostávamos de fazer era percorrer as lojas de discos a comprar vinis de bandas de rock antigas, muita coisa americana que partia do folclore e ganhava batida. Dylan, Springsteen, coisas assim.”

Foto: António Pires

Havia várias bandas no grupo e ele começou a acompanhá-las quando tinham um espetáculo. “Comecei a rodar como vocalista com alguns deles. A voz continuava a ser o meu ponto forte, e ainda hoje tenho de admitir que toco guitarra para segurar um tema, mas não sou propriamente um génio das cordas.” Faziam o circuito da zona sul, Bromley e Denmark Street. Quando juntavam uns trocos gastavam tudo em discos e concertos em Camden ou Brixton. Chegou a ter uma banda com nome próprio – chamava-se Sam I Am.

Acabou o curso em 1996, e contrariou as expetativas paternas de vir trabalhar em finança para o Luxemburgo. “Inscrevi-me num mestrado em Política na London Guill Hall e continuei sempre a tocar. Gravei um álbum de samples e tinha três ou quatro cantigas em português, que partilhava no MySpace. Era a grande plataforma de divulgação de música no final dos anos noventa.” Um dia foi contactado por Luís Galvão Teles, que produzia para a RTP o filme “Tudo Isto é Fado” e tinha gostado da música que ele fazia. “Queria uns arranjos, umas músicas, e convidou-me a mim e ao Nuno Maló para o ajudar. Entretanto acabei o curso, trabalhava em finança e odiava aquilo. Achei que aquele convite era uma boa desculpa para voltar a Lisboa.” No verão de 2001, embarcou para a capital portuguesa.

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Voltas e voltas
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Na primeira parte de um concerto dos Xutos e Pontapés, em 2017.
Na primeira parte de um concerto dos Xutos e Pontapés, em 2017.
Foto: DR

Instalou-se na Charneca da Caparica, “e cheguei numa altura em que a Margem Sul bombava, havia uma cena musical muito forte em Almada, no Barreiro.” Da Weasel, Plastica, Bizarra Locomotiva davam cartas a sul do Tejo e ele também queria seguir caminho, e o trilho, soube-o sempre, era pelo folk rock. “Fundei os Lata Dog e dois membros da banda eram do Estoril. Não tínhamos muitos concertos, então eu ganhava a vida com uns gigs num bar irlandês do Cais do Sodré. Depois, graças à minha banda, connheci os Delfins, que depois me apresentaram aos Primitive Reason. Ficámos amigos.”

Os Lata Dog tinham editado um álbum, chamava-se Lead the Way, e Hugo queria ir apresentar o trabalho a Londres. Juntaram-se aos Primitive e organizaram uma tournée em Inglaterra em 2005 – com muitas atuações nos bares de Denmark Street, onde ele tinha tocado anos antes. “Foi desgastante, mas os quatro anos que tinha passado em Portugal também o foram, por isso decidi ficar.” A aventura portuguesa terminava ali, agora era o regresso à City.

Com vários músicos do Oklahoma. O segundo a contar da direita, mais baixo, é Tony Frisco.
Com vários músicos do Oklahoma. O segundo a contar da direita, mais baixo, é Tony Frisco.
Foto: DR

Quando ligava aos bares para propor atuações, respondiam-lhe que não o conheciam de parte alguma. “E eu lembrava-os que era dos Lata Dog, quando chegava lá tinha sempre o nome Lata nos cartazes. Então fiquei Lata Gouveia, até hoje.” Continuava a partilhar músicas no MySpace e um dia recebe uma mensagem que o fez dar um salto. “Era do Rocky Frisco, pianista do J.J. Cale, basicamente o meu músico preferido. Disse-me que gostava da onda folk das minhas canções e que eu devia ir ter com ele ao Oaklahoma, que era onde todo aquele movimento Red Dirt tinha nascido.” Passou meses a juntar todo o dinheiro que conseguiu, acumulou empregos e turnos para comprar o bilhete de avião. Em junho de 2007, meteu-se num avião para Dallas. À sua espera, no aeroporto, estava o septuagenário Rocky Frisco. Apanharam a estrada nacional 75, conduziram durante mais de seis horas, e desaguaram em Tulsa, no estado norte-americano do Oklahoma. Era uma nova aventura e estava prestes a começar.

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Estrada fora
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Passou três anos e meio nos palcos do Texas e do Oklahoma.
Passou três anos e meio nos palcos do Texas e do Oklahoma.
Foto: DR

A primeira coisa que percebeu em Tulsa é que a vida tinha sido dura para aquela gente. “Estava no centro de uma zona falida, de poços de petróleo que tinham secado, mesmo na fivela do cinturação bíblico da América conservadora. Havia muito racismo, mas a onda musical era extraordinária”, conta agora. Frisco, o amigo, acolhera-o em casa e mostrava-lhe o circuito dos bares, apresentava-o a outros músicos, era um padrinho e peras. Não tardou a começar a entrar no circuito dos bares.

Durante seis meses, a vida foi alcatrão e terra batida. “Andei por bares em todo o Oklahoma, desde a fronteira com o Texas até ao Kansas. E foi aí que aprendi uma boa lição de partilha. Naqueles lugares, os músicos tocavam todos as canções uns dos outros, partilhavam-nas e com isso criavam uma identidade própria muito forte.” Haveria de usar desses ensinamentos anos mais tarde, quando tornou ao Luxemburgo.

Um dia um produtor texano ouviu-o e gostou do seu trabalho. “Convidou-me a mudar para San Marco, entre Austin e San Antonio, e prometeu-me um bom contrato discográfico.” Gravou um álbum chamado Road US 75, em homenagem ao caminho por onde o seu amigo Rocky Frisco o levara até Tulsa. Começou a atuar no circuito de bares da região e, em 2008 e 2009, foi convidado para tocar no South by Southwest, o mítico festival de música de Austin. “Foi espetacular, mas ao mesmo tempo eu andava cansado daquela vida de estrada, dormir em sofás de bares ou móteis de estrada.”

Em 2010, veio visitar os pais ao Luxemburgo. Tinha-se metido a caminho dos Estados Unidos com ideias de ficar um mês e afinal já lá estava há três anos e meio. “Reeencontrei os amigos da escola europeia nesse tempo, percebi que podia ficar por aqui uns tempos.” Apressou-se a formar uma banda – juntou a búlgara Daniela Kruger no baixo, o luxemburguês Jeff Herr na bateria e o escocês Paul Porcelli. Os Lata Gouveia estavam de volta.

Em 2012, deram nas vistas quando ganharam o Purple Idols, um concurso de talentos musicais da grande região do Luxemburgo. Começaram a ser chamados para as maiores salas do país. Den Atelier, Phillarmonie, Kulturfabrik. Fariam as primeiras partes de concertos dos Xutos e Pontapés, Ayo e Sting. Editariam dois novos álbuns – Radio Nights em 2014 e Healed and Gone em 2017. Este ano iriam editar mais um, para celebrar os dez anos de vida luxemburguesa. A pandemia adiou os planos para 2021.

Há cinco anos, Lata Gouveia fundou o Grund Club porque queria replicar num pequeno Grão-Ducado o sabor que tinha provado na mais profunda das Américas – artistas unidos em torno das mesmas cantigas, para que fossem as cantigas a definir o estilo de música de uma região. Então é isso que ele anda a fazer por estes dias em Clausen. “Se os grandes palcos não funcionam agora, que se abra espaço aos pequenos”, remata. E é precisamente isso que está a acontecer, por estes dias, em Clausen.  

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