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A Atlântico aqui tão perto
Cultura 5 min. 23.09.2021
Cultura

A Atlântico aqui tão perto

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A Atlântico aqui tão perto

Foto: João Wainer
Cultura 5 min. 23.09.2021
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A Atlântico aqui tão perto

Vanessa CASTANHEIRA
Vanessa CASTANHEIRA
De 9 a 16 de outubro, a Philharmonie volta a iluminar-se de azul, a cor do Atlântico, o oceano que dá o nome ao festival que celebra a riqueza e diversidade musical dos países lusófonos. À quinta edição chegam Gilberto Gil, Sara Tavares e Luísa Sobral. O Contacto falou com Francisco Sassetti, o programador responsável pelo festival Atlântico.

Há terceira é de vez. Gilberto Gil atua a 10 de outubro no Luxemburgo no festival Atlântico. “É uma das grandes lendas da Música Popular Brasileira e da música do mundo, é ativo e continua a ser muito relevante. Arrisco-me a dizer que é provavelmente o mais internacional dos músicos brasileiros da sua geração”, disse Francisco Sassetti, programador do festival, para também explicar a insistência no regresso de Gilberto à Philharmonie. De recordar que músico foi anunciado nos últimos dois anos, primeiro num concerto no ciclo Autour Du Monde e posteriormente na edição de 2020 do festival Atlântico, que veio a ser cancelada por causa da covid-19. “Esta é a verdadeira quinta edição”. 

O concerto, que revisita o repertório do artista brasileiro, foi criado de raiz para a digressão europeia e conta com a participação especial de Adriana Calcanhoto. Em palco a acompanhar o “cantautor” vêm os filhos Bem Gil e José Gil e os netos João e Flor. “Gilberto quebrou as fronteiras da lusofonia com a sua música e tocou funk, pop ou música africana”, continuou Sassetti. A música de Gilberto confunde-se com a história do Brasil. Tem influências africanas, trazidas nos barcos de escravos, ou indígenas, e tem também uma recente herança musical europeia causada pelos movimentos migratórios do século XIX e XX. Gilberto Gil é pop, rock, jazz, música africana e sul-americana e é também de intervenção.

Foto: Lausiv Dennis

Foi convidada especial de Tito Paris em 2018, agora Sara Tavares atua, no dia 16, como artista principal com os seus convidados, os Cachupa Psicadélica, um coletivo de músicos de Cabo Verde radicado em Lisboa, que tem mostrado o “swag” da cultura da ilha . Há precisamente 25 anos, a jovem conquistou o país ao interpretar “Greattest love of all” de Whitney Houston, no primeiro Chuva de Estrelas, um programa que redefiniu a cena cultural portuguesa, e que do qual saiu vencedora. “Mas só mais tarde começou a desenhar o seu perfil e a mistura de culturas. E hoje é a cantora que melhor representa a lusofonia”. De Lisboa e de ascendência cabo verdiana, Sara Tavares é hoje uma miscelânia da riqueza cultural africana e da música contemporânea que pairam por Lisboa. Tem açúcar na voz e uma ousadia rítmica harmoniosa. 

À sua maneira, e de forma mais simples, Sara Tavares representa para Portugal o que Gilberto Gil representa para o Brasil. Musicalmente, também Sara Tavares segrega todo o ambiente que a rodeia, desde as tradições africanas e às suas experiências de uma Lisboa e mundo multicultural. A provar basta lembrar o primeiro álbum da artista com um grupo de gospel. Mais tarde aventura-se pelo pop, o soul e ritmos africanos em “Mi Ma Bô”, um dos álbuns da cantora que permanece na memória coletiva. Assume-se como uma artista da worldmusic com “Balancê” e dá-se a sua projeção internacional e consequente crescimento musical por segregar para si o que ouve.

Para celebrar mais um Festival Atlântico, há festa cabo-verdiana, no Espace Decouverte. “Uma festa informal como a de 2018, mas desta vez com Roda Coladeira, um conjunto de músicos amadores cabo-verdianos do Luxembrgo de grande qualidade”, garante Francisco Sassetti. Uma festa para celebrar a diversidade.

Foto: MDPhotography

Luísa Sobral, a autora do tema “Amar pelos dois”, escrito para o irmão, Salvador Sobral, e com o qual venceram o Festival Eurovisão em 2017,  regressa à Philharmonie no dia 13. A celebrar os 10 anos de carreira, Luísa Sobral é hoje uma das singer-songwritters “mais interessantes em Portugal”, disse o responsável do festival. “Tem uma voz particular e parece haver uma busca de simplicidade e do que é essencial na canção na música da Luísa Sobral”. Despojada de estéticas musicais, Luísa Sobral criará um ambiente íntimo, de proximidade com o público e uma experiência multisensorial para quem a escutar.

Novidades da edição

No dia 12 há uma estreia no festival com o primeiro concerto de música barroca portuguesa. “Cosmopolitisme du baroque portugais” é um concerto que revisita a história de Portugal. “Portugal tem um período rico em compositores de Barroco porque havia um diálogo grande entre o Rei de Portugal, Itália e o Vaticano. Como havia dinheiro, mandavam-se compositores para Itália para estudarem música e isso criou uma riqueza musical da época.”  Este concerto, que inclui obras de Almeida, Avondano, da Costa, Seixas e Vivaldi, mostra também “uma dimensão extra do que é e foi feito em Portugal em termos musicais”, justifica o programador. “Há público da Philharmonie de música Barroca e agora apresenta-se o Barroco português em âmbito de festival.” Sassetti ainda sublinha que este concerto “alarga o espectro e mostra outras artes”.

A segunda estreia dá-se no dia 15 com a projeção de “Táxi n°9297”, um filme mudo de Reinaldo Ferreira de 1927. “É um suspense com a morte de uma atriz em que depois o Reporter X escreve a história e os factos passam a romances. Tem uma ação lenta e expressionista.”A banda sonora ficou a cargo do compositor contemporâneo  Igor C. Silva “com imenso talento com eletrónica”, como explica Sassetti, e será tocada por United Instruments of Lucilin com direção de Julien Leroy. O programador afirma que “é o projeto mais difícil e significativo desta edição por ser um produto das relações entre a Philharmonie, a Casa da Música e a Cinemateca”.

Programa paralelo

“Der alte König und der Mond” (“O velho rei e a lua”, em português) é o projeto apresentado na edição de 2020 para o jovem público. Mais uma vez o coletivo Sete Lágrimas foi convidado a musicar o espetáculo de teatro baseado na “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto. A última parte da trilogia é apresentada nos dias 9 e 10.

Já o Centro Cultural Português – Instituto Camões e a Embaixada de Portugal no Luxemburgo celebram o festival Atlântico com uma abertura não-oficial e fora de portas com a dupla Song Bird, “dois jovens músicos de ação no jazz e que com este projeto celebra a canção pop e indie e interpreta Bob Dylan, Beatles, Tom Jobim e muito mais, tudo inclusive”, termina Francisco Sassetti.

De recordar que os bilhetes já estão há venda na página ou nas próprias instalações da Philharmonie. Há semelhança de anos anteriores, na compra de dois bilhetes para concertos diferentes, oferece-se a entrada para um terceiro como forma de incentivar às descobertas e aventuras musicais de um festival que sempre tentou ter particularidades nos seus concertos.

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