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A arte de apagar fronteiras

A arte de apagar fronteiras

Foto: Steve Eastwood / Contacto
Cultura 3 min. 28.12.2018

A arte de apagar fronteiras

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Este vai ser um ano único para Marco Godinho. O artista plástico luso-luxemburguês vai representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza.

Entre as muitas invenções não creditadas a Marco Godinho – o artista plástico adora fazer protótipos – está uma agenda com páginas de tamanhos e formatos diferentes. O resultado é um objeto escultural a lembrar “origami”, a arte japonesa de dobrar papel, que subverte a organização monótona e repetitiva dos dias.

A agenda criada por Marco Godinho bate certo com os dias do artista plástico luso-luxemburguês, todos diferentes, muitos dos quais passados a viajar: já expôs em quase todos os pontos do globo, de Beirute a Nova Iorque. Mas 2019 promete ser um ano único para o artista plástico nascido em Salvaterra de Magos, no Ribatejo. Em maio, Marco Godinho, que chegou ao Luxemburgo com nove anos, vai representar o Grão-Ducado na Bienal de Arte de Veneza. E promete levar o tema da emigração na bagagem. “Esta presença lá vai dar-me mais visibilidade internacional e também a possibilidade de me abrir mais a estas questões da ecologia e da emigração, tentando utilizar a arte para uma implicação ainda mais ativa no campo social”, diz.

A emigração e o nomadismo são temas que atravessam o seu trabalho – a exemplo de “Forever Immigrant”, uma obra formada pela sobreposição de carimbos, a evocar o calvário burocrático dos imigrantes. Em Palermo e Lampedusa, apresentou a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, um texto escrito em sobreposição (um método utilizado no séc. XIX para economizar papel) que faz lembrar arame farpado – uma alusão à chegada de milhares de refugiados à costa italiana.

“Gostava que a ideia de fronteiras desaparecesse da consciência humana, que pudéssemos viver em qualquer sítio. É uma forma de utopia, mas gostava que pudéssemos usar o espaço que é o nosso, a Terra, como um só território, onde se pudesse escolher livremente onde viver, sem ligações a uma nacionalidade e sem questionar uma pessoa sobre de onde ela vem, sobre a sua origem”. A ideia, esclarece, é “que todos pudéssemos escolher onde gostaríamos de viver, de passar o tempo”, em vez de as origens e a nacionalidade funcionarem como um constrangimento. No fundo, Marco Godinho gostava que deixasse de existir o carimbo que usou na obra “Forever Immigrant” (“Para Sempre Imigrante”), que evoca também os refugiados, “obrigados a atravessar fronteiras para se sentirem em segurança”.


Marco Godinho, o "nosso homem" em Veneza
O artista plástico Marco Godinho foi escolhido para representar o Luxemburgo na Bienal de Veneza, no próximo ano. É a consagração que faltava ao artista luso-luxemburguês, filho de imigrantes portugueses.

Filho de um trabalhador da construção e de uma costureira que trocaram Portugal pelo Luxemburgo, Marco Godinho admite que a experiência da emigração o moldou. “Cheguei ao Luxemburgo muito novo, tal como muitas outras pessoas, mas isso trouxe-me uma grande liberdade. Passei a sentir-me em casa em todo o mundo”, contou numa entrevista ao Contacto.

Mas não ignora que quem sai do seu país tem muitas vezes dificuldades para se adaptar ao terreno. Para fazer outra das suas obras, “Shoes for experienced walkers” (sapatos para caminhantes experientes), Marco Godinho cortou as solas de um par de botas de caminhada ao meio, unindo-as novamente, mas agora juntando uma metade de cada lado. Num dos pés, ficaram dois tacões, no outro as duas metades da frente da sola dos sapato, criando um desiqulíbrio para quem os usa. As botas têm o símbolo do infinito, aludindo a uma infinita caminhada. Provando que “estes sapatos foram feitos para andar”, Marco Godinho já os usou numa caminhada na Noruega que foi filmada e pode ser vista no Youtube. Mas o protótipo dificilmente chegará a ser produzido em massa, tal como muitas das maravilhosas invenções do artista que já ultrapassou fronteiras e que procura, com as suas obras, fazer repensar o mundo.

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