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12 Years a Slave: 12 anos de escravo ele serviu
Naquele tempo quem tinha a arma tinha razão. Se fosse branco.

12 Years a Slave: 12 anos de escravo ele serviu

Naquele tempo quem tinha a arma tinha razão. Se fosse branco.
Cultura 4 min. 22.01.2014

12 Years a Slave: 12 anos de escravo ele serviu

Steve McQueen nunca fez um filme que não fosse polémico e áspero. É fácil dizer que do cinema de McQueen se gosta ou detesta, mas a relação que se pode ter com a cinematografia do realizador de "Shame" é muito mais complexa.

As temáticas escolhidas pelo britânico nunca são fáceis, mas é a forma crua como as aborda que faz de McQueen um dos melhores valores do cinema de hoje.

Depois de "Hunger", em que trata da greve de fome de Bobby Sands e outros activistas irlandeses, o realizador abordou o sexo e a solidão no excelente "Shame". Sempre com o mesmo actor como protagonista, que regressa em "12 Years a Slave", mas num papel menos central.

Este último trabalho de Steve McQueen é sobre a escravatura; um tema difícil que Tarantino tratou com mão de mestre, mas com os seus habituais elementos recreativos e decorativos. "Django Unchained" é o primeiro novo filme sobre a escravatura; "12 Years a Slave" é o segundo, mas apenas cronologicamente, já que as duas obras se equivalem em muitos aspectos.

Curiosamente, Steve McQueen sempre achou que nunca seria capaz de fazer filmes "à americana". Numa entrevista anterior a "12 Years a Slave" dizia que, efectivamente, rodou "Shame" nos Estados Unidos, mas que não o considerava um filme de Hollywood. "Eles gostam de finais felizes e eu prefiro provocar as pessoas e as suas convicções", dizia então McQueen, explicando que o maior desafio do seu cinema é deixar o público definir as personagens à medida que o filme avança.

Já então o cineasta anunciava que só faria "os filmes que lhe apetecesse" e que as suas obras são muito pessoais. McQueen identificava-se com "Hunger", pois os eventos na Irlanda do Norte marcaram a "perda da inocência, ao descobrir o que o seu país fazia", enquanto que em "Shame" o britânico se revê no protagonista perdido.

Sendo negro, McQueen pode ter tido muitas razões óbvias – e por certo muitas outras que não tenham a ver com a raça – para filmar "12 Years of Slave". O filme é baseado numa incrível história real cuja acção decorre pouco antes da guerra civil norte-americana. Solomon é um homem livre do estado de Nova Iorque que é raptado e transformado em escravo. O protagonista vai conhecer crueldades de todos os tipos, sobretudo por parte de um maléfico proprietário interpretado por Michael Fassbender.

Solomon vai tentar sobreviver mas também manter alguma dignidade. Nos doze anos que o filme acompanha, o escravo vai também conhecer gente boa que o ajuda, acabando por um encontro providencial: Solomon conhece um carpinteiro canadiano, interpretado por Brad Pitt, que vai mudar a vida do escravo. A escravatura nos Estados Unidos é retratada de forma fria, dura, e provavelmente muito realista. O protagonista é "atirado" violentamente de patrão para patrão, come pouco, vive em cubículos e descobre que saber ler e escrever é algo de muito mau para um escravo. Os escravos não têm amigos, são empilhados em carroças como sardinhas para serem transportados e muitos deles não sobrevivem.

A saga de Solomon prende o espectador ainda mais porque ele já conheceu outra vida, a de homem livre. Esse passado conforta-o nos piores momentos.

O drama é difícil de ver e torna-se desconfortável muito cedo, pois o protagonista rapidamente é vítima de crueldades; mas essas violências iniciais não são nada comparadas com tudo aquilo que o espera ao longo de duas horas de película.

O elenco de "12 Years a Slave" é excelente e nem sequer cabem todos na lista, mas destaque-se Brad Pitt, impecável no papel do canadiano com barba "amish", ou Paul Giamatti como vendedor de escravos, e um enorme Michael Fassbender num papel que nem sequer é principal. Mas a pérola desta obra é o trabalho de Chiwetel Ejiofor: um actor inglês cheio de talento que vai ficar no mapa dos grandes intérpretes depois deste filme e talvez mais ainda depois dos Óscares.

"12 Years a Slave" é uma experiência devastadora porque é um filme sem humanismo, cheio de desespero e de gente perdida. Ninguém fica indiferente. É agressivo, é uma brutalidade que nos chicoteia tal como os escravos são chicoteados. Somos insultados, espezinhados, despidos e ensanguentados.

"12 Years a Slave" é um excelente filme, mas poucos vão querer vê-lo de novo. E o pior não é a violência física que testemunhamos mas a violência psicológica que o senhor McQueen resolveu infligir-nos.

"12 Years a Slave", de Steve McQueen, com Chiwetel Ejiofor, Brad Pitt, Dwight Henry, Dickie Gravois, Bryan Batt, Paul Giamatti, Paul Dano e Ashley Dyke.

Raúl Reis