"Passeios do piorio"

O Porto fora do mapa

A "pior agência de passeios do mundo" surgiu como resposta "ao êxodo forçado e à austeridade"
Foto: Duarte Silva

O Porto está na moda. O centro fervilha com restaurantes 'gourmet' e lojas de recordações. A baixa vive uma agitação permanente: ouve-se falar inglês, francês, alemão. Mas basta deixar a zona central assinalada nos mapas turísticos para encontrar um Porto de ruas desertas e casas abandonadas.

É este Porto "fora do mapa" que três arquitectos decidiram mostrar aos turistas. Em 2012, a crise apanhou-os desempregados. Os três decidiram então lançar as "Worst Tours". "Já havia o melhor bolo de chocolate do mundo e a melhor francesinha, e nós decidimos ser os piores", brinca Margarida (Gui) Castro Felga, uma das fundadoras das visitas a pé que levam os turistas a descobrir as zonas esquecidas da cidade.

"Quando nós começámos a fazer as ’tours’, percebemos que os turistas não saíam da zona central, e todas as zonas mais pobres estão fora dessa zona", explica Gui Castro Felga. "Um mapa é uma arma política. O que é que é suposto ver e o que é suposto não ver? Quando viajo, a primeira coisa que faço é ir ao turismo ver que parte da cidade eles metem numa caixinha, para evitar essa zona".

O roteiro dos passeios varia, mas há muito para ver fora do mapa recomendado pelo posto de turismo: as "ilhas", habitações para operários escondidas nas traseiras das casas burguesas do séc. XIX, hortas comunitárias que crescem em socalcos atrás de fachadas, palacetes à venda por causa da crise, um centro comercial falido ocupado por bandas de garagem, prédios abandonados. "Há uns anos, a Câmara do Porto apontava para um terço de casas abandonadas no centro da cidade".

A desertificação do centro da cidade não é de agora, explica Gui Castro Felga a um grupo de turistas. A fuga para os subúrbios começou por causa da falta de conforto das casas antigas e da falta de dinheiro para as renovar. Mas a crise dos últimos anos e a emigração "agravaram a desertificação e o envelhecimento da cidade".

"Perdemos cerca de 150 mil habitantes em 40 anos, o que esvaziou o Porto. E a seguir veio o problema da emigração do país. A um problema que já existia juntou-se um novo problema. E é impossível esconder uma cidade vazia aos turistas, porque eles vêem logo", diz ao CONTACTO o arquitecto Pedro Figueiredo, outro dos "guias do piorio".

Uma cidade às moscas

"O clássico email que nos chega de turistas diz assim: 'Por que é que a cidade está tão vazia?'. Muitas vezes eles vêm de cidades mais densas e com uma economia pujante, e não percebem como é que a segunda cidade do país está tão esvaziada. E a gente tenta explicar-lhes e debater o problema com eles – é um debate ambulante", conta Pedro.

"Numa cultura em que a propriedade privada é um dogma, é uma maravilha juntar gente do Porto e de Lisboa com alemães e holandeses, que têm regras diferentes. Há muitos países no Norte da Europa em que é inadmissível ter um prédio abandonado durante 40 anos. Um proprietário que ao fim de cinco anos não use o edifício leva com uma cartinha da Câmara a dizer: 'Ó amigo, ou vende, ou reabilita, ou faz qualquer coisa, ou deixa fazer'", diz Gui Castro Felga.

Na visita de hoje há americanos, ingleses, um alemão e um italiano. Ao cimo da rua de Santa Catarina, a fronteira invisível que separa a zona turística do resto da cidade salta aos olhos. Abaixo da rua de Fernandes Tomás, que atravessa a zona pedonal, vê-se um mar de gente. Logo acima, lojas abandonadas numa rua às moscas. "Nos últimos anos, segundo a autarquia, fecharam seis a sete lojas por dia na cidade", conta Gui Castro Felga.

A arquitecta pára em frente a uma loja de leilões de artigos provenientes de insolvências. Na montra vêem-se electrodomésticos, brinquedos e outros despojos da crise. "A austeridade veio aumentar os problemas que já existiam e não resolvê-los".

A arquitecta recorda o que aconteceu após a chegada da 'troika'. Para fazer face à crise e aumentar as exportações, era preciso desvalorizar a moeda, "mas não se pode telefonar a Berlim a dizer para desvalorizar o euro". A alternativa foi baixar o custo dos salários, explica aos turistas. "E isso foi fácil em Portugal, porque é possível contratar pessoas a recibos verdes. Há dez anos, uma empregada de limpeza podia ganhar cinco euros por hora. Hoje, são três. As rendas são mais altas, a comida é mais cara, mas os salários baixaram".

Numa economia em crise, o turismo é a única indústria a crescer, sublinha Gui Castro Felga: 7,9% para este ano, prevê o World Travel & Tourism Council. Mas o turismo de massas e a gentrificação dos bairros populares ameaçam agravar os problemas da população. Aumentam as rendas e a alimentação, agravam-se os problemas com os transportes e o estacionamento, descaracteriza-se a cidade. "Nas últimas semanas só ouço falar de pessoas convidadas a sair das casas em que vivem, por causa do Airbnb. Isto é preocupante", diz Gui Castro Felga.

Para Pedro Figueiredo, a pressão do lucro impede um debate sério sobre o futuro da cidade. "É tudo na perspectiva prós e contras. 'É contra ou a favor do turismo, é contra ou a favor dos imigrantes?' O que nós queremos é iniciar um debate construtivo sobre estas questões".

Gui Castro Felga garante que as "Worst Tours" não são visitas guiadas anti-turismo. "Mas quando os turistas me dizem que os portugueses são muito acolhedores, eu respondo-lhes que quando estive em Barcelona, há dez anos, os catalães também eram muito simpáticos, mas depois cansaram-se".

Francesco, um italiano a viver na capital catalã, sabe do que a guia fala. Em 2014, a cidade, que tem 2 milhões de habitantes, recebeu 7,5 milhões de turistas. Empurrados para fora de Barcelona, os residentes estão a reagir e a organizar debates e consultas públicas para discutir "o que fazer para ter uma cidade melhor, não para os turistas, mas para quem lá vive", conta Francesco. "O Porto ainda pode evitar converter-se numa nova Barcelona. Ainda há tempo", defende.

Paula Telo Alves, no Porto

Mais Galerias