“O consulado de Portugal no Luxemburgo era a representação oficial da ditadura”

Thierry Hinger, historiador e investigador da Universidade do Luxemburgo, está a fazer uma tese de doutoramento em História sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, entre o 25 de Abril de 1974 e o ano 2000. Apesar de ter começado a investigação apenas em Outubro de 2013, o investigador, de 32 anos, tem já alguns dados recolhidos. Em entrevista ao CONTACTO, Thierry Hinger revela que os portugueses não se limitavam apenas a criticar o consulado português no Luxemburgo ou a reivindicar o direito de voto. Havia portugueses que exprimiam a sua opinião contra a ditadura.

O historiador Thierry Hinger diz que na altura do 25 de Abril, os portugueses não se limitavam apenas a criticar o consulado português ou a reivindicar o direito de voto. Havia quem exprimisse a sua opinião contra a ditadura
Fotos: Gerry Huberty

CONTACTO – Antes de entrar no tema da sua dissertação, porquê este interesse por Portugal?

Thierry Hinger – Fiz os meus estudos superiores na Universidade de Trier (Alemanha) e o meu trabalho de fim de estudos, na altura, foi sobre a imigração portuguesa no Luxemburgo, especificamente o discurso sobre a Nação portuguesa na imprensa portuguesa no Luxemburgo. Portanto, o interesse já vem de há alguns anos.

CONTACTO – Então, esta tese de doutoramento acaba por aparecer na sequência dos estudos feitos na Alemanha. Ao certo, qual vai ser o seu objecto de estudo neste doutoramento?

Thierry Hinger – Antes de mais, a razão desta tese deve-se à importância da imigração portuguesa no Luxemburgo para a sociedade luxemburguesa contemporânea e para a História contemporânea. O que vou trabalhar é o discurso do Estado português, a partir da Secretaria de Estado da Emigração, que mais tarde viria a chamar-se Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, sobre a comunidade portuguesa espalhada no mundo, tendo o Luxemburgo como caso de estudo. A investigação vai centrar-se no discurso em diferentes meios de comunicação social e mais tarde, a partir da década de 80, através do Conselho das Comunidades (CCP) e do Congresso das Comunidades. Vou debruçar-me sobre as relações concretas entre a comunidade portuguesa no Luxemburgo e Portugal depois da Revolução dos Cravos de 1974 até ao ano 2000 e a sua relação com a política de emigração do Estado português. O tema da minha tese é essa política da emigração e a relação com os imigrantes no Luxemburgo.

CONTACTO – E porquê a partir do 25 de Abril?

Thierry Hinger – O Estado português tinha vontade em manter relações com os emigrantes. Foi sobretudo a partir da revolução que o processo de democratização em Portugal passou a tocar os emigrantes, como por exemplo o direito de voto dos portugueses no estrangeiro. Era esse direito de voto que era reclamado pelos portugueses no Luxemburgo, como está plasmado no jornal CONTACTO de então. Só era permitido o voto às pessoas que estavam no Luxemburgo há pelo menos cinco anos ou que tivessem um cônjuge ou filhos menores em Portugal, o que excluiria, segundo os dados do CONTACTO, praticamente 80% dos imigrantes portugueses no Luxemburgo de participar, por exemplo, nas eleições de 25 de Abril para a assembleia constituinte de 1975.

CONTACTO – O trabalho realizado ainda é pouco, mas será que já nos pode dizer, por exemplo, como é que a comunidade portuguesa no Luxemburgo viveu o 25 de Abril?

Thierry Hinger – As minhas fontes de pesquisa nesta fase são mais a imprensa portuguesa no Luxemburgo. Na altura da Revolução dos Cravos havia apenas um jornal português, o CONTACTO. Nesse período, o que ressalta claramente é a crítica ao Consulado português no Luxemburgo e, de maneira geral, à ditadura e aos seus representantes no estrangeiro. As pessoas mostravam-se também favoráveis à participação política no Luxemburgo, nomeadamente pelo direito de voto dos portugueses no estrangeiro. Nos primeiros meses depois da revolução houve reacções imediatas no jornal, da parte dos imigrantes portugueses. Houve também uma manifestação no dia 11 de Maio, na cidade do Luxemburgo, para saudar a queda da ditadura do Estado Novo. Essa manifestação foi também de apoio à Junta de Salvação Nacional que queria pôr fim à guerra colonial. A comunidade portuguesa no Luxemburgo reagiu de uma maneira muito forte sobretudo na exigência da demissão do então cônsul de Portugal no Luxemburgo, José Mendes Costa.

CONTACTO – Que fazia parte do antigo regime...

Thierry Hinger – Sim, o Consulado de Portugal no Luxemburgo era a representação oficial da ditadura do Estado Novo, e as pessoas queriam agora que o novo Governo destacasse uma pessoa com um passado democrático e não fascista, como se dizia. Alguém que não fizesse parte da ditadura.

CONTACTO – E os luxemburgueses, como é que acompanharam o 25 de Abril?

Thierry Hinger – Neste estudo não há uma visão da sociedade luxemburguesa sobre a imigração portuguesa. O olhar é mais do outro lado, de Portugal sobre a emigração portuguesa e da imigração portuguesa sobre Portugal. Mas também o que a imigração portuguesa trouxe ao Luxemburgo, mas ainda é muito cedo para falar sobre isso. O que posso desde já afirmar é que havia luxemburgueses solidários com os portugueses que queriam mudanças no regime. Entre as associações portuguesas criadas no Luxemburgo nos anos 70, como por exemplo a Amizades Portugal-Luxemburgo (APL), que editava então o jornal CONTACTO, havia luxemburgueses e portugueses a trabalhar na Redacção. Um dos seus fundadores, Lucien Huss, escrevia sobre os acontecimentos da altura, em Portugal, e saudava a mudança do regime. À parte do CONTACTO, surgiu no Outono de 1974 o jornal comunista “A verdade”, dirigida pelo luxemburguês Pierre Fusenig, que também era bastante activo junto dos comunistas portugueses.

CONTACTO – Havia então portugueses no Luxemburgo que não se ficavam apenas pelas críticas ao Consulado. Deu aqui o exemplo dos comunistas...

Thierry Hinger – Os portugueses não se limitavam apenas a criticar o Consulado português no Luxemburgo, a reivindicar o direito de voto e a saudar o fim da ditadura. Havia portugueses que exprimiam a sua opinião. Há um episódio relatado num artigo da época, ainda no início da revolução, em que alguns comunistas portugueses no Luxemburgo se juntaram à peregrinação em Wiltz, a 26 de Maio de 1974. Depois, chegaram mesmo a escrever contra as Amizades Portugal-Luxemburgo, que organizava as procissões juntamente com a Missão Católica Portuguesa. Os comunistas acusavam os padres de passarem a mensagem de que os portugueses deviam sofrer. Estes portugueses comunistas, por seu lado, estavam mais interessados em consciencializar os portugueses para a luta conjunta em prol dos direitos dos trabalhadores. Foi o que fez o jornal “A verdade”, quando em 1975, participou activamente no movimento operário do Luxemburgo contra os despedimentos de portugueses, sobretudo no sector da construção, numa altura em que a crise começou a tocar o Grão-Ducado.

CONTACTO – Mas havia também outras forças políticas portuguesas aqui no Luxemburgo.

Thierry Hinger – Além dos comunistas havia também o partido socialista que tinha relações internacionais com os seus camaradas socialistas. A 11 de Agosto de 1974, o novo secretário de Estado das Comunidades, Pedro Coelho, dirigiu-se aos emigrantes, a partir de Lisboa, dizendo que a estrutura económica subdesenvolvida em Portugal e o recrutamento industrial capitalista eram os responsáveis pela saída de muitos portugueses do país. É um discurso que pode ser lido no CONTACTO. Este mesmo Pedro Coelho esteve ainda no mesmo ano, mas no início de Outubro, na primeira reunião do Partido Socialista no Luxemburgo. Durante essa visita apresentou ainda aos imigrantes portugueses as linhas principais da nova política de emigração do Estado português. Um pouco depois da revolução houve um congresso socialista em Bruxelas. Os socialistas também queriam a demissão do cônsul de Portugal no Luxemburgo, Mendes Costa. Era um partido muito activo no Luxemburgo e chegaram mesmo a trazer aqui um candidato em campanha para as eleições constituintes de 25 de Abril de 1975, em representação dos emigrantes, José Neves. Mas também havia gente do Partido Popular...

CONTACTO – Há pouco falava do papel do Movimento das Forças Armadas (MFA) e da Junta de Salvação Nacional no fim da Guerra Colonial. Nessa altura já havia por cá portugueses das antigas colónias, sobretudo de Cabo Verde. Como era vista a questão dos movimentos independentistas das antigas colónias?

Thierry Hinger – Sim, havia cabo-verdianos, mas não há muitas referências nos jornais. Na imprensa portuguesa, sobretudo no jornal “A verdade”, há muitas referências à independência da Guiné-Bissau, de Angola... O apoio às antigas colónias no combate contra o regime ditatorial é claro. Há muitas referências aos movimentos de libertação na Guiné, Moçambique, Angola...

CONTACTO – O seu orientador de tese é o historiador Michel Pauly que, se não estou em erro, afirmou que até 1974 a PIDE estaria no Luxemburgo. Há factos que provem esta tese?

Thierry Hinger – Na imprensa portuguesa havia indícios que a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) esteve no Luxemburgo. Sabemos que o então cônsul Mendes Costa era um bom amigo da PIDE, ou melhor, da Direcção Geral da Segurança (DGS), como lhe veio a chamar Marcelo Caetano. Creio ser verdade o que diz Michel Pauly, até porque ouvimos isso de alguns representantes dos imigrantes portugueses. Podemos supor essa presença, mas para isso precisamos de outro estudo.

CONTACTO – No meio da nossa conversa foi soltando algumas palavras e expressões em português… Aprendeu português no Luxemburgo?

Thierry Hinger – Tive aulas de português enquanto estudava em Trier e aprendi também lendo o CONTACTO, durante as pesquisas que fiz para a minha formação em História. Tenho de ir ainda a Lisboa continuar a investigação sobre a política de emigração das comunidades portuguesas e o português que já aprendi, vai ajudar-me um pouco.

CONTACTO – Além dessa ida a Lisboa, dos jornais portugueses no Luxemburgo, quais são as outras fontes para a sua tese?

Thierry Hinger – Ainda em Portugal... alguns jornais para emigrantes, os comunicados da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. Por cá, conto com algumas entrevistas, as associações locais, o Consulado e a Embaixada, e algumas empresas.

Henrique de Burgo