OPINIÃO

Cuidado Centeno

Sergio Ferreira Borges

Portugal está a ser varrido por uma onda de otimismo económico que começa a gerar desconfianças entre os que já viram quase tudo na vida. Mário Centeno deve cuidar-se e desconfiar de tanto elogio.

O défice de 2016, que atingiu o valor recorde de 2.1%, nunca visto em 40 anos de democracia, já baixou e parece que vai ser validado em 2%. Um diferencial de uma décima nestas coisas é relevante. O desemprego para 2017, segundo as previsões, vai baixar dos dois dígitos, depois de ainda há pouco tempo ter andado na casa dos 20%. O crescimento económico, que tinha uma previsão para 2017 que oscilava entre 1.7 e 1.8%, foi revisto em alta pela insuspeita Universidade Católica. E que alta! Passará de 1.7 para 2.4%.

É aqui que começam as minhas reservas. Primeiro, porque a subida é muito substantiva, sete décimas podem consubstanciar aquilo que, ainda há poucos anos, se chamava de milagre económico. Depois, porque os economistas da Universidade Católica (UC) nunca se distinguiram pela eficácia das suas previsões. Prudentemente, o Governo não mexeu nos seus cálculos e mantém os 1.8% inscritos no OE. Prudência que não foi suficiente para travar o falso entusiasmo de alguns jornais que adoptaram a previsão da UC como a mais credível. Fora dos números das previsões, há indicadores que sustentam a ideia de um crescimento económico consolidado. Basta dizer que, apesar da significativa subida dos preços, os hotéis do Algarve e de outras regiões do país já estão lotados para o verão. As exportações estão a crescer, não só para os destinos tradicionais, mas também para novos mercados, entretanto conquistados. Na direção da Faculdade de Economia da UC há muita gente que não simpatiza com esta solução governativa, o que faz desconfiar de tanta generosidade. Não sou exatamente um crente, da teoria da conspiração. Mas não me surpreende que, lá mais para o fim do ano, as previsões da UC sejam revistas em baixa. E que, nessa altura, os elogios que hoje se fazem a Mário Centeno se transformem em críticas severas. Imagine-se, por exemplo, que o crescimento se ficava pelos 2%. Não faltaria gente a dizer que Centeno ficou aquém das previsões.

Diz-se que Mário Centeno já pediu a Bruxelas uma revisão em alta dos 1.8% previstos pelo Governo portguês. Se o fez, pode ter dado um tiro no pé.

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