Estrangeiros regressam às raízes no interior de Portugal

Durante décadas, o interior de Portugal viu milhares dos seus habitantes partir para a cidade e para outros países. Hoje, está a tornar-se referência para gente de toda a Europa que procura uma vida ligada à natureza. Inspiradas pelas ideias da permacultura, há cada vez mais pessoas a instalar-se, a regressar às raízes – e a começar por si próprias a mudança que querem ver no mundo.

Ray e duas voluntárias preparam um viveiro de árvores na aldeia do Rossaio, perto de Góis
Foto: Francisco Pedro

Hélder colhe uma abóbora gigante. Lesley percorre a pé o caminho de três quilómetros que a levam até casa. Ray planta castanheiros e sobreiros. Chris procura a próxima quinta biológica onde pode ser útil. O que têm os quatro em comum? Vindos da cidade ou de diferentes países da Europa, descobriram no interior abandonado de Portugal o lugar para semear a sua vontade de um mundo melhor e de uma vida mais sustentável.

"Em Portugal há condições que não há em mais nenhum sítio da Europa. O sul é a zona da Europa que tem maior biodiversidade. O clima mediterrânico é dos melhores para se viver. E, comparado com outros países, Portugal preserva ainda muito da sua cultura rural".

As palavras são de Hélder Valente, professor no Instituto de Permacultura da Quinta Vale da Lama, em Odiáxere, no Algarve (www.valedalama.net) . Mas a principal vantagem do país é mesmo o acesso a terra: "Há tanta terra vazia! Noutros países tens de ser rico para conseguir um pedaço de terra."

Para perceber este cenário, é preciso recuarmos à década de 60: o Luxemburgo, como a França e o resto da Europa, tornam-se o destino para quem procura melhores condições de vida e quer escapar ao regime fascista, e a emigração atinge números nunca antes vistos.

Em dez anos, Portugal perde um milhão de pessoas – mas, ao mesmo tempo, a população em Lisboa e Porto aumenta mais de 10 %. Se o país fosse uma jangada, tinha-se virado.

"Fiz parte desse êxodo para a cidade: a minha família vem toda da agricultura, da zona de Viseu", conta Hélder, que até há dois anos vivia em Lisboa. "Vir da cidade não é uma limitação. O que importa é ter essa vontade de procurar um estilo de vida com menos impacto, mais ligado à natureza. Muita gente que foi criada na cidade está à procura de uma alternativa, uma qualidade de vida que não passa pelo dinheiro, um sítio mais descontraído para criar os filhos, uma vida com menos stress...".

Sobre o esvaziamento do interior, Hélder acha "natural as pessoas procurarem melhores condições de vida", mas lamenta as perdas culturais.

"Os mais velhos que ficaram sozinhos nos campos têm saberes ancestrais que vinham de geração em geração desde sempre, e nos últimos quarenta anos essa cultura rural sofreu um grande abalo."

Hoje o desafio é recuperar esses saberes e criar condições para que as pessoas possam voltar ao campo e ter mais qualidade de vida. Por lugares quase esquecidos, como a serra da Lousã ou o barrocal algarvio, têm florescido nos últimos anos dezenas de projectos de vida mais sustentável.

O paradoxo é notável: o abandono do interior, sintoma da pobreza de outros tempos, é hoje a maior riqueza para aqueles que querem uma vida mais ligada à natureza. A mesma terra que os antigos tiveram de abandonar no passado, é aquela em que cada vez mais pessoas vindas das cidades e de toda a Europa decidem semear o seu futuro.

AGRICULTURA PERMANENTE

A permacultura, contracção das palavras agricultura e permanente, é uma proposta de criação de habitats humanos mais sustentáveis.

"É uma forma de planeamento que cria estabilidade a longo prazo. Em vez de querer uma produção rápida, de querer o máximo de produtividade agora, ela quer criar essa produtividade durante as próximas gerações. Quer dar o arranque inicial para que a natureza possa funcionar por si só", explica Hélder.

"Passa por recuperar os conhecimentos ancestrais sustentáveis, que sempre existiram e funcionaram." Exemplo? "A aldeia inteira ir ao mesmo moinho moer o seu milho, ter um moleiro responsável – uma arte, um saber ancestral que está em extinção. Existia uma rede sustentável, sem poluição, sem plástico, sem desperdício. Dentro da aldeia tudo era reciclado, a poluição era transformada num recurso , fechando um ciclo – é isso que a permacultura faz. Os dejectos das casas de banho, por exemplo, eram usados para estrumar árvores."

"As pessoas estão a compreender que no mundo ocidental estão completamente dependentes de coisas que vêm de milhares de quilómetros de distância: rosas da África do Sul, grão do México, maçãs do Chile... E estamos a pouco e pouco a perder muitas das variedades de sementes portuguesas. A permacultura surge como uma resposta: criar estabilidade, alcançar eficiência energética, sem estarmos dependentes de coisas que vêm do outro lado do mundo e que são um desperdício de energia. Temos cá plantas melhores, cultivadas às vezes há milhares de anos neste sítio."

Estas ideias estão a ganhar cada vez mais peso em Portugal. Uma das grandes responsáveis é Lesley Martin. Esta sexagenária inglesa foi durante vários anos a única pessoa habilitada para dar cursos de permacultura em Portugal. Por ela passaram mais de trezentos alunos.

"Muitos têm graus académicos, mestrados, e não encontram trabalho, ou um trabalho que lhes faça sentido. O sonho europeu falhou-lhes. Há um sentimento generalizado de que as coisas não vão melhorar nos próximos tempos. Então voltam às suas raízes, e vêem a permacultura como um potencial para a mudança. A oportunidade está aí, e os jovens estão a senti-la. Desiludidos com a vida na cidade, vêem nos seus antepassados um tipo de riqueza que eles nunca poderão atingir", explica.

"Sentem essa ligação com as suas raízes e querem recuperar a sua auto-determinação", concorda Hélder. "A permacultura devolve esperança, é a resposta mais directa às ameaças e instabilidades sociais – vamos regenerar a natureza, vamos fazer disto um paraíso para dar para os nossos filhos e as gerações que vêm a seguir."

A própria Lesley é um exemplo. Desiludida com o mercado comercial, vendeu a quinta na Inglaterra onde há vinte anos produzia e vendia produtos biológicos. As primeiras verdadeiras férias que teve trouxeram-na a Portugal, já lá vão mais de 10 anos, e aqui decidiu viver. Com o dinheiro da venda da quinta, comprou um pequeno terreno na serra de Monchique e um sistema de energia solar.

Entre vizinhos, partilham o que têm a mais. Também ali sobram apenas dois portugueses, daquilo que já foi uma comunidade vibrante, e há imensos terrenos abandonados.

"Perdeu-se muita coisa com o abandono dos campos: o sentido de ligação à terra, a qualidade dos solos, a vegetação. Muitos conhecimentos e técnicas continuam a ser perdidos. Os idosos que ficaram não têm ninguém para passar os conhecimentos, porque há aqui uma geração em falta."

Mas Lesley não podia estar mais satisfeita com o rumo que escolheu. "Tive oportunidade de me tornar largamente auto-suficiente, sem contas para pagar. Desisti do meu carro. Não tenho de trabalhar e posso viver da minha terra. Tenho porcos, galinhas, coelhos, todo o tipo de legumes... Posso sobreviver com aquilo que tenho, e isso tem-me dado uma liberdade incrível para fazer exactamente o que quero. Antes estava a trabalhar em empregos de que não gostava."

"É uma revolução disfarçada de jardinagem", brinca Hélder. "Estas florezinhas e alfaces que andamos a plantar têm um impacto social e económico muito maior do que as pessoas imaginam. Se calhar mais importante do que ir à assembleia protestar contra os políticos. Estamos a dar esperança. A maior revolução que podes fazer é cultivares a tua própria comida."

EXPERIMENTAR FAZENDO

O Rossaio teria desaparecido do mapa. A pequena aldeia de uma dúzia de casas, no conselho de Góis, já só existia nas ruínas que sobravam de pé e na memória de alguns habitantes da região. Até que um grupo de escoceses viu ali "um espaço para criar um futuro melhor".

O The Hive (thehiveportugal.org) é um projecto que quer "fazer renascer a aldeia como uma comunidade auto-gerida, auto-suficiente, sustentável e com baixo impacto", explica Ray.

Faz quatro anos que adquiriu os quatro hectares de terreno. Perante a vista incrível da serra da Lousã, as ruínas de xisto ganham vida. A água vem das nascentes, a electricidade é produzida através de energia solar.

"É o começo de um espaço de experimentação de práticas sustentáveis, ao nível das relações humanas e ambientais. Um projecto cooperativo para construir os sonhos de uma vida sustentável, incorporando agricultura, arte, construção e design."

Neste momento um dos grandes objectivos é plantar, por entre as destrutivas monoculturas de eucalipto e pinheiro, árvores como carvalhos, sobreiros, nogueiras ou medronheiros. "Queremos criar actividades que mostrem que a gestão sustentável da floresta representa uma mais-valia para a economia local", explica Ray, que procura residentes portugueses permanentes que dêem continuidade ao projecto.

Este é mais um dos projectos a dar vida à zona da Serra da Lousã, onde a cada ano há mais pessoas a instalar-se. "Por aqui já passaram centenas de voluntários", conta Ray.

No The Hive, como na maioria destes projectos, a ajuda de jovens voluntários é essencial. E a internet assume um papel central.

O WWOOF (www.wwoof.org) é uma rede de intercâmbio em que quintas e projectos de agricultura oferecem estadia e alimentação em troca de trabalho voluntário, e tem sido a oportunidade para milhares de jovens em todo o mundo terem experiências em primeira mão de agricultura biológica, permacultura ou construção ecológica.

Em Portugal já há mais de cem quintas biológicas a utilizar esta rede, que nos últimos anos tem trazido centenas de jovens ao país. Um deles é Chris, dinamarquês. Aos 21 anos, deixou a Dinamarca para vir "aprender sobre permacultura, aprender a viver de forma sustentável, a fazer as coisas pelas próprias mãos, em vez de ler simplesmente no computador."

"Percebi que Portugal tinha muitas coisas a acontecer, há muitas coisas aqui concentradas", conta. Começou por ficar um mês num projecto de permacultura na zona de Portalegre, e continua a viajar de quinta em quinta. Pelo caminho tem encontrado jovens do Reino Unido, Bélgica, França, Suécia... Alguns procuram mesmo terrenos onde se possam instalar.

Em Portugal, Chris descobriu que "ainda há muita agricultura tradicional, e não de grande escala. Os agricultores têm muita sabedoria, sabem como fazer as coisas eles mesmos. Têm conhecimentos de construção, do solo e das plantas, de como processar comida... Podemos aprender tudo isso!".

UM FUTURO PARA ESCREVER

"Portugal tem um potencial enorme", garante Lesley Martin. "Aqui as pessoas têm essa vantagem incrível de, sem serem ricas, poderem ter acesso a um pedaço de terra, seja para fins comerciais ou para a auto-suficiência. Muitos dos meus alunos dizem que a avó tem um pedaço de terra aqui ou ali, e eu só penso como são sortudos! Não é assim no resto da Europa."

Problemas também os há. "Criámos por todo o país um deserto de eucaliptos", lamenta Hélder Valente. "Essas culturas extensivas estão a secar a água e a longo prazo provocam grandes problemas e desequilíbrios. Muitas espécies de plantas e animais desaparecem."

Para além disso, não é fácil introduzir as novas técnicas da permacultura. "Há um século de práticas agrícolas, muitas delas insustentáveis, que é difícil ultrapassar. Há desconfiança, sobretudo se for um estrangeiro com ideias novas", explica Lesley. "A minha vizinha acha que sou louca!"

"Ainda é um pequeno grupo de pioneiros, que tem a tarefa difícil de ir contra as correntes e abrir espaços. Tem de provar que a permacultura resulta, é produtiva. Tem de recuperar o conhecimento antigo e a ligação com a comunidade. É preciso as pessoas verem os resultados: que sem fertilizantes químicos se consegue ter boa produção, sem envenenar os solos, sem poluição. Que é possível viver no campo com qualidade de vida", observa Hélder.

"Depois já será uma coisa banal, fará mais sentido guardar as próprias sementes do que comprar novas, usar uma vaca em vez de um tractor. A segunda geração já terá caminho aberto e um nível maior de maturidade."

"Espero que aqueles que tenho treinado ganhem experiência e possam guiar as outras pessoas quando as coisas se tornarem mais difíceis, quando tivermos problemas de segurança alimentar e as pessoas disserem 'o que vamos fazer agora? não sabemos cultivar!'", diz Lesley.

"Tenho muita esperança de que podemos criar um futuro melhor a partir desta crise. A economia global, baseada em recursos finitos, está a chegar ao fim, e temos de ter algo pronto para pôr no seu lugar. Estas alternativas são uma opção muito melhor. É uma oportunidade de reinventarmos a nossa existência e o nosso futuro."

Um futuro que se desvenda nos olhos brilhantes do jovem Chris. "Podemos ainda ser poucos, mas é um começo. Devagar podemos ir mudando as coisas. Um dia quando os supermercados não estiverem cheios de coisas, os recursos estiverem esgotados, temos de fazer algo nós próprios e não são os governos que nos vão ajudar. Não sei do resto da sociedade, mas eu vou estar a cultivar a minha própria comida, ter talvez um trabalho em part-time, mas não vou precisar de muito dinheiro. Quero estar próximo de pessoas que o façam também, viver colectivamente, partilhar conhecimentos, e ir trazendo mais pessoas, de forma relaxada."

E será o interior de Portugal um sítio apelativo para se viver? "Eu próprio estou a pensar nisso! Quero ainda descobrir o norte de Portugal. Estou muito inspirado para vir para cá viver."

Francisco Pedro

Publicado no CONTACTO em 07.11.2012