OPINIÃO

Não é defeito, é feitio

Um passageiro que tinha reservado e pago o seu bilhete foi arrastado à força de um voo, ensanguentado e meio despido, perante a incredulidade dos restantes passageiros – e a internet incendiou-se.

O resto da história magoa o nosso inato sentido de justiça – foi a própria companhia a vender bilhetes a mais para aquele voo, a querer à última hora sentar quatro dos seus empregados no avião já cheio, e a chamar a polícia para fazer o trabalho sujo de expulsar o recalcitrante.

“Detesto as segundas-feiras”, repete o gato Garfield na sua banda desenhada. É uma queixa muito comum entre todos nós que começamos um novo ciclo de trabalho, já suspirando pelo próximo fim de semana. Mas há uma réplica (erradamente atribuída ao filósofo Slavoj Zizek) que por ser menos conhecida não deixa de ser certeira: “Não detestas as segundas-feiras, detestas este capitalismo”. A ideia intrínseca é que não há nada de errado com a “segunda-feira”, que é simplesmente um nome para designar um dia entre cada sete; o problema reside no retorno à rotina e às tarefas repetitivas a que chamamos “trabalho” e que preenchem a nossa vida com stress e angústia. É contra isto que deveríamos agir, mas em vez disso canalizamos as nossas energias negativas para um conceito inocente e inanimado – “segunda-feira” – que, por ser inevitável e perene, tem o efeito de negar a cada pessoa qualquer possibilidade de alterar o destino, transformando o ativismo potencial em fatalismo; por sua vez, o sistema fica protegido de qualquer tipo de crítica ou reforma.

Devido às imagens do incidente, a United Airlines vai ser processada, perdeu cotação em bolsa, e granjeou o ódio e o boicote, de milhares de clientes. Justificadamente, pois afinal falamos de uma organização multimilionária que fez pagar um simples cidadão anónimo pelas suas ganância e incompetência. Só que o tremendo é que a UA nem sequer é original, nem cometeu qualquer ilegalidade: lendo a letra miúda descobrimos que a empresa tem o direito de vender bilhetes a mais, de ordenar a qualquer passageiro que abandone o avião e de recorrer à polícia para o “convencer”. A empresa não é mais que um sintoma da doença que é vivermos numa sociedade desenhada para maximizar o lucro das multinacionais, destruindo o planeta e atropelando os direitos, a dignidade e a humanidade dos indivíduos que dela fazem parte, reduzidos a números ou empecilhos. A UA não passa de uma “segunda-feira”.

Hugo Guedes

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