OPINIÃO: Duche escocês

Foto: AFP

Por Hugo Guedes - Os benefícios para o bem-estar geral do organismo obtidos por despejar jatos de água quente e fria, alternadamente, sobre o corpo, são bem conhecidos. A prática, presente em muitas termas, é conhecida por “duche escocês” e beneficia a circulação, através da dilatação e constrição dos vasos sanguíneos.

A corajosa primeira-ministra regional da Escócia, Nicola Sturgeon, está decidida a aplicar a política do duche escocês às suas relações com Londres, e acaba de atirar um jato de água bem gelada à engrenagem do Brexit, procurando capitalizar a confusão generalizada reinante e abrindo uma nova frente de batalha para a líder britânica Theresa May. A Escócia vai pedir um segundo referendo sobre a sua independência, isto depois de o “Não” ter ganho após o primeiro referendo em 2014. O anúncio foi feito no próprio dia – esta frenética segunda-feira – em que o Parlamento britânico levantou os últimos obstáculos à “lei do Brexit”, o que significa que, a partir de agora, o artigo 50.º do Tratado da União pode ser invocado a qualquer momento (é esse o gatilho que despoleta formalmente o processo de saída do Reino Unido da União Europeia).

Nicola Sturgeon acaba de atirar um jato de água bem gelada à engrenagem do Brexit.

Essa saída acontecerá algures em 2019, e a Escócia quer decidir antes o seu destino. O argumento dos independentistas é fortíssimo – a região, que votou para continuar na UE e dela claramente necessita, vai ainda assim ver-se arrastada para fora pelo resto do país. E não consegue sequer obter de Londres algum compromisso: Sturgeon falou no “muro de intransigência” que a Escócia encontra sempre que procura falar de igual para igual com a Inglaterra.

A campanha antes desse segundo referendo será certamente escaldante, e alguns já temem (ou sonham com) uma pequena Inglaterra abandonada por todos, a ruminar as glórias do império perdido. Mas este jogo de apostas altas também é perigoso para os independentistas, que deveriam ponderar bem o exemplo do Quebeque. A região francófona do Canadá também teve dois referendos sobre a secessão, ambos perdidos (o segundo por curtíssima margem). O resultado pôs uma pedra a encerrar a ideia, provavelmente para sempre. Numa altura em que as sondagens na Escócia indicam uma (pequena) vitória do “Não”, e com previsões económicas algo incertas (até porque o preço do petróleo, que a Escócia produz, baixou muito em relação a 2014), o jato de água fria pode acabar por disparar ao contrário.

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