Hayange. A comuna da Frente Nacional que quer fronteira fechada com o Luxemburgo

Agentes municipais de Hayange, ao lado de um outdoor de boas-vindas à comuna fronteiriça
Foto: Henrique de Burgo

A autarquia francesa de Hayange, a 20 quilómetros do Luxemburgo e governada pelo partido Frente Nacional, de Marine Le Pen, apoia a reintrodução do controlo nas fronteiras francesas. Em caso de vitória, esta deverá ser a primeira medida da candidata de extrema-direita, que afetará cerca de 90 mil fronteiriços franceses que todos os dias atravessam a fronteira para vir trabalhar no Luxemburgo.

A candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, prometeu esta segunda-feira que se for eleita Presidente dos franceses, a sua “primeira medida será devolver à França as fronteiras”, para proteger o país do terrorismo.

Na comuna de Hayange, a 20 quilómetros do Luxemburgo, a Frente Nacional elegeu pela primeira vez, em abril de 2014, um autarca do partido.

Fabien Engelmann, autarca de Hayange, diz que se for reposto controlo nas fronteiras, não vai haver problema para os trabalhadores fronteiriços
Foto: Reuters

Fabien Engelmann governa a vida de 16 mil habitantes, um terço deles trabalhadores no Luxemburgo, e diz que o possível fecho das fronteiras não vai trazer problemas aos trabalhadores fronteiriços de França.

“Se Marine Le Pen ganhar não vamos fazer um muro como nos Estados Unidos. Vamos voltar às fronteiras, que nos protegem contra a imigração em massa. Os trabalhadores poderão continuar a trabalhar livremente no Luxemburgo. Os fronteiriços só terão de passar pela sua autarquia para obter um passe gratuito de livre circulação na autoestrada em direção ao Luxemburgo, como acontece atualmente”, garante o autarca.

Consciente de que “há cada vez mais residentes de Hayange a trabalhar no Luxemburgo”, Fabien Engelmann reconhece que esta medida não seria suficiente para aliviar o possível aumento do trânsito na já congestionada autoestrada entre os dois países, a A31.

A principal solução para a circulação dos fronteiriços seria a ligação direta de comboio entre Hayange e o Grão-Ducado, que está parada por “falta de investimento” da região de Lorraine e da companhia dos caminhos-de-ferro franceses, SNCF.

Atualmente, os habitantes de Hayange que usam o comboio para chegar ao Luxemburgo são obrigados a ir primeiro até Thionville.

O teletrabalho ou car-sharing são outras ideias que Engelmann propõe trabalhar “de forma inteligente com o Governo luxemburguês”.

A autarquia de Hayange é governada pela Frente Nacional há três anos
Foto: Henrique de Burgo

Trabalhar no Luxemburgo tem “mais vantagens”

Laurent Sacco, 52 anos, está sem trabalho há quatro meses. Faz parte dos 15% de desempregados em Hayange. Trabalhava como limpador de vidros para uma empresa de trabalho temporário em Gasperich, no Luxemburgo.

Tal como os outros 92 mil fronteiriços provenientes de França, atravessava diariamente a fronteira. Diz que não é racista, mas defende a reposição das fronteiras, “para evitar os abusos de estrangeiros que se aproveitam dos subsídios, enquanto há franceses na miséria”.

Laurent recebe da Segurança Social francesa 900 euros por mês de subsídio de desemprego, depois de ter ficado sem trabalho no Luxemburgo. Em caso de fecho de fronteiras, diz que vai voltar a tentar encontrar trabalho no Grão-Ducado, onde encontra “mais vantagens” e porque em França “não há trabalho”. Uma situação que não difere muito dos estrangeiros que tentam encontrar uma vida melhor em França.

Christelle Pertzing nasceu em Hayange e trabalha em Metz. Tem amigos que trabalham no Grão-Ducado e também reconhece a “melhor situação do Luxemburgo em relação a França”. No entanto, diz que não vale a pena “perder uma hora de manhã e outra à tarde para ir trabalhar do outro lado da fronteira”. Sobre as eleições presidenciais, confessa que no domingo vai votar em Le Pen e que quem trabalha no Luxemburgo vai ter de ter “mais paciência”. “Vai ser preciso ter mais paciência para atravessar a fronteira, mas mesmo assim Marine Le Pen continua a ter melhores ideias e um discurso mais claro que os outros candidatos, que não me interessam”.

Em Hayange ainda é visível os traços do passado ligado às minas
Foto: Henrique de Burgo

Margarida Nascimento, 47 anos, nasceu, vive e trabalha em Hayange. Filha de cabo-verdianos de Santo Antão, aos fins de semana costuma atravessar a fronteira para ensaiar e dar espetáculos de “contradança” com outros cabo-verdianos, residentes no Luxemburgo, que fazem parte do mesmo grupo. “Não é correta esta proposta sobre a fronteira. Conheço muita gente daqui que trabalha no Luxemburgo e isso vai implicar perder mais tempo até chegar ao trabalho”, defende Margarida, que mesmo sem saber ainda em quem vai votar, tem uma certeza: “Nunca será em Le Pen”.

Manu Picard já sabe em quem vai votar, mas prefere não dizer. Para ele não importa quem chegue ao poder, porque “vai ser mais do mesmo”. Admirador do Presidente russo Vladimir Putin, diz que a questão da fronteira não o afeta. “Como não trabalho para o Luxemburgo, mas sim para a França, o controlo fronteiriço diz respeito a quem lá trabalha e não a mim. Por mim podem lá pôr barreiras, ou o que quiserem”, conclui.

Henrique de Burgo

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