EDITORIAL - Ainda há estrelas no céu

EDITORIAL POR JOSÉ LUÍS CORREIA - Na madrugada de segunda-feira, os insomníacos, ou apenas os curiosos, puderam ver no céu luxemburguês, habitualmente nublado, mas que naquela noite estava límpido e claro, o eclipse lunar de uma Super Lua, o que originou uma Lua Vermelha. Um fenómeno astronómico semelhante só voltará a ser observável nas nossas latitudes em 2033.

Mais tarde no mesmo dia, o planeta vermelho roubou a primeira página à Lua Vermelha, quando a NASA anunciou ter encontrado água líquida em Marte.

Já se sabia que o quarto planeta possuía água no estado sólido nas calotas polares, o rover Curiosity descobriu leitos secos de antigos rios e há indícios de que houve até um oceano no hemisfério norte marciano. Mas agora, foi a sonda Mars Reconnaissance Orbiter que detectou sinais espectrais de sais hidratados que aparecem e desaparecem sazonalmente em Marte. Tradução: há zonas do planeta onde existe água salgada líquida na Primavera e no Verão marcianos. Os cientistas pensam que essa água não provém do gelo do subsolo, mas da absorção do vapor de água da atmosfera nas estações quentes.

Porque é que esta descoberta é importante para nós? Porque o facto de haver água líquida em Marte permite pensar que pode existir vida microbiana marinha semelhante à que existe nos mares da Terra. Em segundo lugar, porque a água é essencial para uma futura missão humana a Marte. Em terceiro, porque saber se a vida como a conhecemos existe noutros mundos é uma das únicas portas de saída para quem acha, como eu, que nós não vamos conseguir salvar a Terra quando esta ficar exangue de recursos naturais, estéril e poluída.

AFP

De Marte para Cabo Verde. Algumas regiões do arquipélago fazem-me pensar nas planícies e montes marcianos, pelo menos as ilhas Sal e Fogo. Não é depreciativo. Os dois lugares têm em comum uma beleza rara, áspera, invulgar... e a falta de água. Apesar do nome, Cabo Verde é um país sem rios, onde chove apenas algumas semanas por ano e a seca extrema tudo ameaça, terras e gentes, e o futuro. Em países como este, a ajuda externa é fundamental.

Nesta edição, temos uma entrevista com o primeiro embaixador de Cabo Verde a residir no Luxemburgo. Já não era sem tempo. A comunidade cabo-verdiana que aqui está desde os anos 1960 (os primeiros vieram com B.I. português) já o justificava e as relações bilaterais entre os dois países também. Além disso, Cabo Verde é desde 1993 o país no qual o Luxemburgo mais tem investido na cooperação ao desenvolvimento. Em mais de 20 anos, o Grão-Ducado apoiou o país com ajuda alimentar, a criação de habitações, infra-estruturas, saneamento básico e acesso à água.

Graças a três Programas Indicativos de Cooperação (PIC), desde 2002 o Luxemburgo já enviou para Cabo Verde 138,5 milhões de euros. Em Março, o Grão-Duque Henri esteve no arquipélago pela primeira vez para assinar um novo pacote de 45 milhões de euros, a utilizar até 2020 (PIC 4). Para quem mora no Luxemburgo e visita Cabo Verde vem-nos um sentimento de orgulho por ver aqui e ali casas de saúde, centros de formação profissionais, escolas hoteleiras, escolas primárias e liceus com a menção “construído com o apoio da Cooperação luxemburguesa”.

A Cooperação luxemburguesa em Cabo Verde devia ser um ”case study” para a UE e para o Mundo. Ao exemplo do Luxemburgo contraponho o extremo oposto, o dos EUA. O Grão-Ducado investe no futuro de certos países, os EUA em si próprios. Se em vez de derrubar governos para controlar zonas petrolíferas, os americanos (e outros países como a França e o Reino Unido) tivessem negociado com o poder na Síria e no Iraque, o Estado Islâmico não teria nascido das cinzas e do caos, e não viveríamos hoje um êxodo calamitoso de refugiados. Se os governos europeus e americano não fossem coniventes com certos ditadores africanos, as ajudas internacionais não seriam desviadas para engordar oligarcas iníquos em detrimento das populações locais. Há países africanos com tantas riquezas naturais que nem necessitariam da ajuda internacional. Mas é precisamente nesses países que o povo morre à fome, vive na miséria, não tem acesso à água e é empurrado a imigrar para a Europa.

É investindo em certos países “frágeis” que se evita a imigração massiva. A ONU propôs nos seus Objectivos do Milénio em 2000 – reafirmados no domingo em Nova Iorque, com a Agenda 2030 – que cada país rico deveria investir 1% do seu PIB para ajudar países pobres. Apenas o Luxemburgo, a Dinamarca, a Noruega, a Holanda e a Suécia cumprem esse objectivo, em mais de 190 países-membros da ONU, quase metade dos quais são considerados países desenvolvidos.

Felizmente, no Luxemburgo o exemplo não vem apenas de cima. Como resposta feliz aos queixumes e protestos nas redes sociais dos que são contra a vinda de refugiados veio a voz, mais alta, dos que logo agiram e reagiram, angariando bens e alimentos, e propondo-se até para acolher requerentes de asilo em casa.

Isto tudo faz-me acreditar no bem. Ainda há estrelas no céu. E na Terra. Valham-nos os homens e as mulheres de boa vontade. Faz mais quem quer do que quem pode.