OPINIÃO: Luís Fifa

Luís Figo está na China para conseguir apoio
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Avenida da liberdade, por Sérgio Ferreira Borges - Luís Figo surpreendeu tudo e todos ao anunciar a sua candidatura à presidência da FIFA, o organismo que dirige o futebol mundial. Vai desafiar o actual presidente, o suíço Joseph Blatter, de 78 anos, que está há 40 na FIFA, os últimos 17 como presidente.

Luís Figo deu prova de grande coragem, ao pretender disputar um jogo com as cartas viciadas. Mas é contra esse vício que ele quer lutar, como disse na sua declaração de candidatura.

Joseph Blatter usa processos que qualquer realizador de cinema aproveitaria para fazer mais um filme sobre a máfia. Por exemplo, quando há semanas anunciou a sua disponibilidade para mais um mandato, misturou esse anúncio com outro – iria distribuir alguns dividendos da FIFA pelas federações nacionais financeiramente mais carentes. Isto foi visto como mais uma tentativa de comprar votos para a sua eleição. Mas já nada surpreende neste economista suíço, que foi levado ao topo do futebol mundial pelo seu antecessor, o brasileiro João Havelange. Um favor que ele continua a pagar. Por exemplo, no Mundial do Brasil, contratou uma empresa de comunicação, da neta de João Havelange, para apoio dos jornalistas.

Na última edição do Festival de Cinema de Cannes, estreou um filme tido por muitos como um elemento de propaganda à recandidatura de Joseph Blatter. Os custos de produção da película, suportados pela FIFA, ascenderam a 25 milhões de euros, mas a receita não foi além dos 200 mil. É mais um exemplo do tipo de gestão da FIFA, onde o dinheiro abunda e ninguém pede responsabilidades aos órgãos executivos sobre a forma como ele é gasto.

A atribuição da organização dos dois próximos campeonatos do mundo à Rússia e ao Qatar também suscita muitas desconfianças. Muita gente suspeita que andou muito dinheiro por baixo das mesas para influenciar a decisão da FIFA.

É contra tudo isto que Luís Figo se propõe lutar, com argumentos que vão muito para lá da sua popularidade mundial, conquistada por uma carreira ímpar de futebolista. Inteligentemente, escolheu a mais poderosa cadeia de informação televisiva, a CNN, para anunciar a candidatura.

É evidente que a vitória não será fácil, até porque Blatter já começou a comprar os votos das federações mais pobres. Mas a virtude pode vencer o vício. Desde terça-feira, Luís Figo está na China, tentando conseguir o apoio de uma das mais poderosas federações asiáticas e com grande influência regional. Isto é só o princípio de uma longa viagem que, até 29 de Maio, o levará aos quatro cantos do mundo. Não leva pacotes de dinheiro, mas leva argumentos de honradez e competência que podem cativar muita gente. Geralmente, apoios cativam apoios, e a China pode ajudar a federação russa a virar-se para Luís Figo.

Com a desistência dos dois candidatos franceses, Figo pode conquistar a simpatia de grande parte das federações europeias. A partir daí, pode partir para o continente americano, onde as preferências se dividem. A influência de João Havelange ainda é muito notória. Mas Figo pode inverter essa tendência, começando pelo Brasil e pela Argentina.

Desde já, fica uma certeza. Esta candidatura constitui uma meia vitória. Resta saber se Luís Figo vence a 29 de Maio ou se adia o resto do triunfo para as eleições seguintes. Muitas vezes, as vitórias constroem-se com algumas derrotas. E a pior das derrotas é por falta de comparência. Luís Figo preferiu estar presente, tal como lhe determinou a sua consciência.