Os portugueses na ficção luxemburguesa

A presença dos portugueses no Luxemburgo também deixou marcas na ficção. De personagens secundárias a protagonistas de romances policiais, os portugueses vão conquistando páginas nos livros luxemburgueses. Uma evolução que reflecte a realidade da imigração no país, garante o director do Centro Nacional de Literatura.

Alex Torres

A entrada dos portugueses na ficção luxemburguesa fez-se pela porta das traseiras. Inicialmente, os portugueses assumem papéis secundários, pouco visíveis, à imagem da primeira vaga de imigração para o país. "Nos anos 70, 80 e 90, os portugueses são quase sempre personagens à margem da história, e não os encontramos como protagonistas principais na literatura luxemburguesa", diz o director do Centro Nacional de Literatura, Claude Conter.

O responsável aponta uma peça de teatro de Nico Helminger, 'De Schantchen' ("o estaleiro de construção", em luxemburguês) em que o operário português nem sequer tem voz. "A personagem portuguesa é muda: não fala durante toda a peça e acaba por morrer", exemplifica.

A peça, publicada em 1989, inscreve-se numa corrente literária que usa a ficção como arma para denunciar a injustiça social. "São autores que se posicionam do lado dos trabalhadores e dos excluídos, sobretudo dos trabalhadores imigrantes, e que querem sensibilizar o público para a questão da imigração. Nos anos 70 e 80 encontramos portugueses como personagens menores neste tipo de literatura, que faz crítica social e tem um olhar crítico em relação ao Luxemburgo. A situação dos trabalhadores está sempre presente, reflectindo o mundo real", explica Conter.

Ainda assim, os portugueses continuam a ter papéis menores. Na peça de teatro "Eisefrësser" ("Ferrugem"), de Guy Rewenig, uma comédia de costumes à luxemburguesa, "há um português casado com uma luxemburguesa que é constantemente corrigido pela mulher quando fala luxemburguês: a sintaxe, a pronúncia...". Na peça, traduzida para francês por Claude Frisoni e levada à cena por Frank Hoffmann em 1994, com o título "Cam-acier", o português sonha em voltar para Portugal "para abrir uma lavandaria".

A influência dos portugueses no país reflecte-se também no primeiro romance policial em língua luxemburguesa, publicado em 1997. Em "Um Porto para os advogados" (no original, "Porto fir d’Affekoten"), de Josy Braun, a arma do crime é um cálice de licor português. "É um livro policial na tradição de Raymond Chandler em que as vítimas, advogados e figuras da burguesia luxemburguesa, morrem com vinho do Porto envenenado", recorda o responsável do CNL.

A história, que viria a ser publicada em Portugal pela Companhia das Letras, em 2006, é inspirada num crime cometido nos anos 80 por uma empregada doméstica portuguesa, revelou o escritor ao CONTACTO. A mulher teria assassinado o patrão luxemburguês.

O interesse do autor pelos portugueses não é acidental. O antigo jornalista do Tageblatt, falecido em 2012, escreveu vários editoriais sobre a Revolução dos Cravos e a imigração portuguesa. "A vida dos imigrantes portugueses interessava-o, sobretudo a situação política do país", explica Claude Conter. Mas seria preciso chegar a este século para que os portugueses saíssem dos bastidores.

Crime, disse o detective português

A partir de 2000, o papel dos portugueses muda. "Encontramos protagonistas portugueses nos policiais, e o que é mais interessante, personagens femininas", aponta o director do Centro Nacional de Literatura.

É o caso da heroína Maria Ferreira, uma comissária da Polícia grã-ducal de origem portuguesa. A protagonista dos policiais do luxemburguês Jeff Herr nasceu em Celorico de Basto e imigrou para o Luxemburgo com os pais, "que não encontravam trabalho em Portugal". O pai trabalhou na construção e a mãe num talho. Os dados biográficos da personagem principal, descrita como "uma mulher bonita, de cabelo negro encaracolado", imitam a realidade de várias famílias portuguesas no país. Maria Ferreira frequentou o liceu na cidade do Luxemburgo, "estudou Criminalística na Universidade do Porto" e regressou ao Grão-Ducado para trabalhar na Polícia, conta-se nos livros "Die Tote ohne Augen" ("Os mortos sem olhos"), de 2012, e "Das Christkind" ("O menino Jesus"), de 2013.

Não é caso único, sublinha o director do CNL. Nos romances policiais de Pierre Decock, um escritor luxemburguês de origem belga, o protagonista volta a ser um português chamado João Da Costa Rebelo ('Da Costa' escrito com maiúscula, como é hábito no Luxemburgo). O luso-descendente é um jovem inspector da polícia luxemburguesa que leva a melhor aos criminosos que perturbam a pacatez do Luxemburgo, incluindo um 'serial killer'.

Os dois primeiros episódios da série, "De Profundis" (2009) e "In Articulo Mortis" (2011), foram bem recebidos pela crítica luxemburguesa, e ilustram o acesso a lugares de destaque da segunda e terceira geração. "Na literatura e nos policiais, encontramos já personagens de origem portuguesa como funcionários da administração pública luxemburguesa, inspiradas em exemplos da segunda e terceira geração de portugueses", frisa Claude Conter.

E a escolha de luso-descendentes para o papel de detective não se fica pela literatura. No grande ecrã, são várias as ocasiões em que os portugueses fazem de agentes da Polícia, como a agente Silva no enorme sucesso de bilheteira "Doudege Wénkel" ("Ângulo Morto"), candidato do Luxemburgo aos Óscares, aponta Claude Conter.

Outro dos destaques é "Reynaert no país das maravilhas", de Claude Schmit, publicado em 2015. No livro, que retrata um Luxemburgo em crise de identidade por causa do afluxo de refugiados e estrangeiros, o português Fernando e o luxemburguês Reynaert comparam a história dos dois países, trocam mitologias e descobrem afinidades. No processo, ficam amigos. O livro está repleto de referências à história e cultura portuguesa, de Fernando Pessoa a Saramago.

As personagens portuguesas também chegaram à literatura juvenil. Claude Conter destaca "Les yeaux noirs", de Christiane Grün, que narra as desavenças entre uma criança portuguesa e um aluno luxemburguês, uma forma de combater a xenofobia através da literatura.

Na biblioteca do Centro Nacional de Literatura, em Mersch, continua ainda assim a faltar a saga da imigração portuguesa no Grão-Ducado. "É preciso tempo, mas talvez venha a haver uma saga sobre a imigração portuguesa escrita por um autor português, como fez Jean Portante para a imigração italiana", diz o director do CNL.  

Paula Telo Alves


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